Duque, Rita de Cássia Soares (org.). Letramento digital e a transforma-ção educacional no século XXI. Natal: editora amplamente, 2024. 196 p.

Autores

DOI:

https://doi.org/10.5585/2025.28962

Resumo

O livro Letramento Digital e a Transformação Educacional no Século XXI, organizada por Rita de Cássia Soares Duque, foi lançada em um momento crucial para a educação brasileira: o pós-pandemia de Covid-19, quando a precariedade das competências digitais docentes se revelou insustentável. A obra é resultado do empenho coletivo de educadores e pesquisadores que, ao longo de suas trajetórias, têm lidado com os diversos desafios que a tecnologia impõe à formação de professores. Voltada integralmente ao contexto nacional, a obra dialoga diretamente com iniciativas como o ProInfo e o Programa Banda Larga nas Escolas, e, ao mesmo tempo, antecipa debates sobre inteligência artificial generativa e cultura de dados — temas ainda raros em publicações anteriores a 2020.

No primeiro capítulo, a discussão aborda a infraestrutura como pré-requisito inegociável para qualquer política de letramento digital. Ao recuperar dados do Censo Escolar 2020, o texto evidencia a distância entre redes públicas e privadas: somente 52% das escolas municipais oferecem banda larga, em contraste com 85% das escolas particulares, desigualdade que escancara um “piso tecnológico” ainda frágil para a maioria dos estudantes brasileiros. Em seguida, os autores conectam essa lacuna à precariedade da formação docente, mostram que muitos professores concluem a licenciatura sem contato consistente com dispositivos ou conectividade, pois as próprias instituições formadoras enfrentam restrições semelhantes; o resultado é um ciclo de desmotivação e desatualização que alimenta o déficit de competências digitais na ponta. O capítulo encerra propondo que políticas de expansão da banda larga sejam acompanhadas de financiamento para suporte técnico contínuo.

O segundo capítulo amplia a discussão sobre infraestrutura e aprofunda o debate distributivo ao mostrar que acesso não garante equidade: renda familiar, raça e capital cultural determinam formas distintas de apropriação tecnológica. Os autores argumentam que a exclusão digital amplia a defasagem cognitiva ao limitar oportunidades de aprendizagem ativa e colaborativa. Além do diagnóstico, o capítulo introduz a noção de “justiça digital” para exigir políticas de redistribuição e reconhecimento. Defende-se que programas compensatórios incluam trilhas de letramento culturalmente sensíveis — não basta entregar tabletes; é preciso garantir mediação docente qualificada para que grupos historicamente minoritários possam construir autonomia crítica diante dos algoritmos.

No terceiro capítulo, dedicado à inclusão digital e às políticas públicas, a discussão migra do campo analítico para o normativo, revisitando marcos como ProInfo, Educação Conectada e o novo PNE. A originalidade reside na proposição de dezenove indicadores operacionais capazes de transformar intenções políticas em métricas palpáveis, como tempo efetivo de uso pedagógico das TDIC, largura de banda por aluno e proporção de professores certificados. Por fim, o capítulo argumenta que a lógica de projetos isolados deve ceder espaço a uma política sistêmica que combine infraestrutura, formação docente e incentivos à inovação.

O último capítulo, “Letramento digital × resistência tecnológica”, mergulha nas dimensões subjetivas da mudança institucional. O texto revela que muitos docentes associam as TDIC à perda de autoridade ou ao aumento da carga de trabalho, gerando comportamentos defensivos que bloqueiam a inovação. Os autores mostram que superar essa resistência exige ir além do treinamento técnico: é necessário redesenhar culturas escolares para valorizar experimentação, erro criativo e aprendizagem entre pares. O capítulo conclui que liderança distribuída e comunidades de prática são alavancas essenciais para sustentar mudanças duradouras. Sem essas redes de apoio, mesmo políticas bem financiadas tendem a regredir quando o foco midiático desaparece, recolocando a resistência cultural no centro do palco.

A coletânea distingue-se por oferecer aportes inéditos ao debate sobre letramento digital docente no Brasil, indo além da mera descrição de carências de infraestruturas. Em primeiro lugar, introduz de modo sistemático a inteligência artificial generativa como eixo de personalização do ensino e de reconfiguração do papel do professor. Ao articular a IA a plataformas adaptativas e trilhas formativas, os autores mostram como algoritmos podem diferenciar ritmos e percursos de aprendizagem sem deslocar a centralidade pedagógica do docente, antecipando discussões que só recentemente chegaram às diretrizes nacionais de formação continuada.

Outra contribuição original reside na proposta de uma matriz de monitoramento que converte a retórica da inclusão digital em métricas operacionais. O livro descreve como gestores podem acompanhar, em painel único, variáveis como largura de banda disponível, tempo efetivo de uso das TDIC nas aulas e proporção de professores certificados em competências digitais. Embora ainda careça de validação empírica, essa arquitetura de indicadores — associada a ciclos de feedback semestrais — oferece um instrumento de governança que faltava às políticas públicas existentes e dialoga diretamente com a necessidade de “mecanismos de monitoramento e avaliação que permitam ajustes constantes” salientada na obra.

No plano pedagógico, o volume avança ao integrar modelos híbridos e abordagens STEM (Science, Technology, Engineering and Mathematics) à Base Nacional Comum Curricular. Em vez de tratar a interdisciplinaridade como apêndice, os capítulos demonstram como sequências de projetos baseados em ciência de dados podem alavancar competências de Matemática, Ciências e Linguagens, oferecendo exemplos de salas que combinaram laboratórios maker com análise de conjuntos de dados locais para resolver problemas comunitários. Esse entrelaçamento de currículo e cultura de dados cria um repertório prático que faltava a publicações anteriores, limitadas a orientações genéricas sobre “uso de tecnologia”.

Por fim, a obra apresenta caminhos concretos para vencer a resistência cultural ao digital, destacando a força das comunidades de prática. Ao fundir evidência empírica, ferramentas de gestão e recomendações formativas, Rita Duque e colaboradores oferecem não apenas diagnóstico, mas um roteiro operacional para transformar competências digitais em política educacional efetiva.

Dessa forma, a obra é recomendada porque alia relevância contemporânea, discutindo IA generativa e dados escolares pós-pandemia, a uma análise crítica apoiada em estatísticas do Censo Escolar 2020, além de propor indicadores de gestão e relatar experiências bem-sucedidas. Esses elementos oferecem a professores, formadores e gestores um roteiro claro para promover letramento digital com equidade e resultados mensuráveis, ainda que a validação de alguns indicadores necessite de estudos adicionais.

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Biografia do Autor

Luciene Rodrigues Barbosa, Universidade Federal de São Paulo, SP, Brasil

Doutora em Ciências da Saúde pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP). Mestre em Enfermagem pela Universidade Guarulhos (UnG). Especialista em Enfermagem Obstétrica pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM) e Especialização em Saúde Coletiva com Ênfase em Programa Estratégia da Família pela Faculdade Literatus. Possui vivencia prática como Enfermeira Assistência em Centro Obstétrica e maternidade, Supervisora e Coordenadora de Enfermagem. Na docência na Coordenadora do Curso de Enfermagem, Tutora EAD na UNIFESP. Coordenação da Maternidade em hospital privado em MG. Membro do Grupo de pesquisa Práticas e Educação Baseadas em Evidência (GEPEBE) e Acolhe-Onco da Escola Paulista de Enfermagem - UNIFESP. Produção científica com destaque nos seguintes temas: Competência Gerenciais, Estratégias de Ensino, Mapeamento Conceitual, Saúde da Mulher, Oncologia e Saúde Coletiva

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Publicado

23.12.2025

Como Citar

BARBOSA, Luciene Rodrigues. Duque, Rita de Cássia Soares (org.). Letramento digital e a transforma-ção educacional no século XXI. Natal: editora amplamente, 2024. 196 p. Cadernos de Pós-graduação, [S. l.], v. 24, n. 2, p. 314–316, 2025. DOI: 10.5585/2025.28962. Disponível em: https://periodicos.uninove.br/cadernosdepos/article/view/28962. Acesso em: 25 jan. 2026.

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