Editorial
DOI:
https://doi.org/10.5585/2025.30037Resumo
Este número da revista Cadernos de Pós-Graduação é publicado em dezembro de 2025, em um contexto histórico marcado por significativos conflitos sociais, políticos e bélicos, cujos desdobramentos acarretam graves infortúnios para a educação em escala global.
Casos como o que ocorre na Faixa de Gaza, com sua barbárie e extermínio em massa, materializam a arrogância e as concepções de supremacia ainda vigentes nos países centrais da sociedade burguesa. Tais realidades exigem de nós a capacidade de articulação social em defesa dos direitos humanos e das condições de vida mais elementares, como as da população palestina.
Temas como o negacionismo, a xenofobia, a intransigência nas questões de gênero e étnico-raciais, a perseguição às comunidades LGBTQI+, o desprezo pelas populações idosas e em situação de rua, e o feminicídio demandam, cada vez mais, análises aprofundadas das múltiplas opressões. Essas manifestações também estão presentes no campo educacional, com suas especificidades históricas, culturais e políticas, plasmadas nas práticas e nas políticas públicas. Compreendê-las é fundamental para que possamos promover o papel da educação na construção da igualdade e da justiça social.
Na busca por esse objetivo auspicioso, trazemos a público o presente número dos Cadernos, constituído pelas seguintes contribuições:
Luís Otávio Vilela da Cruz e Nívea Dias Fernandes, em “O conceito de colonialismo epistemológico: fundamentos, recorrências e atualizações”, discutem esse conceito como uma forma de dominação que persiste na atualidade, mesmo após a superação formal das estruturas coloniais. Os autores analisam como a hierarquização dos saberes, promovida a partir da modernidade ocidental, relega epistemologias não europeias à marginalidade. O estudo, de natureza teórica e baseado em revisão bibliográfica (Quijano, Mignolo, Santos, Walsh e Grosfoguel), tem como eixos centrais a “colonialidade do saber”, o “epistemicídio” e a “desobediência epistêmica”. Evidencia-se, assim, a urgência de uma reestruturação dos paradigmas científicos a partir de uma perspectiva decolonial, que reconheça a pluralidade epistêmica.
Gilmara Santos de Jesus e Reginaldo Santos Pereira, em “A infância entre os ‘fios’ das políticas curriculares: relações de saber e poder”, debruçam-se sobre a criança e a infância no âmbito educacional. Os autores problematizam a constituição da infância como categoria social e de direitos e sua inserção no espaço escolar por meio da institucionalização de leis, normas e políticas curriculares. A investigação, de cunho bibliográfico, analisa como o dispositivo curricular, envolto em uma teia discursiva, opera strategicamente as relações de saber e poder sobre a infância, direcionando os modos de organização da Educação Infantil e a produção do sujeito infantil.
Kelyn Caroline Bueno, em “Reflexões sobre o estágio de docência no ensino superior”, apresenta as contribuições dessa atividade para a formação de professores universitários. A autora baseia-se em um relato de experiência vivenciado como mestranda, durante estágio na disciplina de Fundamentos da Alfabetização e Letramento, na Universidade Estadual do Paraná, campus de União da Vitória. O texto destaca a importância de aliar aspectos teóricos e práticos na preparação de docentes para o ensino superior.
Nonato Assis de Miranda, Maicon Rogerio de Oliveira da Silva e Sérgio Rezende Falco, em “Interfaces entre Gestão Escolar e Clima Escolar: uma análise de conteúdo de teses e dissertações (2018–2023)”, analisam essa relação com base em um levantamento na Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações. Por meio de uma abordagem qualitativa e da técnica de Análise de Conteúdo, identificam quatro categorias principais: práticas de gestão e permanência docente; clima escolar e mediação de conflitos; participação, diversidade e inclusão; e clima, desempenho acadêmico e avaliação. Para os autores, a gestão democrática e participativa é um fator estruturante para um clima escolar positivo, influenciando o engajamento, a convivência e os resultados educacionais.
Mariana Silva Mancilha, em “A educação não formal e o ecoar das ressonâncias afetivas”, reflete sobre o coral em suas ressonâncias vocais-afetivas e sua relação com a educação não formal, com ênfase no conceito de ressonância vocal-afetiva. A autora defende uma visão abrangente da educação, que considere diferentes pessoas e espaços, valorizando potencialidades que os ambientes formais frequentemente excluem. Por meio de pesquisa bibliográfica, o artigo tece diálogos sobre os desafios e as potencialidades do coral e da educação não formal para a formação humana.
Angelaine Dutra, Estefani de Deus e Aaron Hengles, em “A relevância da educação financeira na vida dos jovens estudantes do ensino médio”, refletem sobre o tema a partir de uma pesquisa com estudantes de uma escola pública de Cachoeira do Sul. O estudo, fundamentado em autores da área e em dados coletados via questionário e entrevista, analisa como os jovens percebem a Educação Financeira em suas vidas e sua influência no âmbito familiar. Entre os resultados, destaca-se que 60% dos entrevistados se sentem mais preparados para lidar com questões financeiras após estudar o tema, e 53% consideram que a disciplina deveria ser obrigatória no currículo.
Rosiley Aparecida Teixeira e Fabio Jose Pereira, em “Relação escola-família: um outro olhar”, tratam dessa relação na educação infantil, buscando identificar e analisar as concepções de mães sobre o tema. Por meio de questionários aplicados a seis mães (identificadas por nomes de flores para preservar seu anonimato), o ensaio explora como elas entendem e vivenciam essa parceria, revelando suas narrativas e modos de reconhecimento.
Daniel Rodrigues Aurélio, em “Os Sentidos da reprodução escolar: um olhar da teoria sociológica clássica para os dilemas e contradições da reprodução escolar e a alternativa das ‘escolas transformadoras’”, propõe-se a analisar, a partir de Marx, Weber, Durkheim e autores contemporâneos da tradição francesa, o fenômeno das chamadas "escolas transformadoras". O autor argumenta que suas práticas, aparentemente promissoras, podem acabar reproduzindo a dinâmica do capital. Nesse processo, discursos divergentes são cooptados por estratégias que minam a horizontalidade nas relações, estimulando um espírito crítico que, por vezes, é instrumentalizado pelas elites para manter posições de poder ou promover uma mobilidade social controlada.
Vinicius da Silva Coutinho e José Roberto Gomes Rodrigues, em “O Conceito de ‘Formas de Escolarização’ nas produções acadêmicas no período de 2019 a 2022”, buscam compreender como o conceito foi utilizado nesse intervalo temporal. Guiados por revisão de literatura que inclui Rodrigues e Bourdieu, e por trabalhos indexados no Google Acadêmico e no banco do PPGESA, os autores apontam uma tendência de aplicação do termo a distintas situações referentes à instituição escolar. Eles ressaltam que, embora o conceito não tenha sido aprofundado teoricamente na maioria das produções, evidencia-se uma perspectiva de múltiplas formas que compõem a escolarização.
Patrícia Aparecida Bioto e Desiclei Mara de Oliveria Barrocal Mapeli, em “Narrativas (auto)biográficas como espaços de formação de gestores: a dimensão tácita do conhecimento e sua correspondência com a identidade profissional”, apresentam resultados parciais de uma pesquisa-ação desenvolvida com 15 gestores de uma rede municipal de ensino paulista. O estudo, de abordagem qualitativa, investiga a dimensão tácita do conhecimento pessoal e sua correspondência com a identidade profissional. A produção de dados, por meio de narrativas autobiográficas, um instrumento de testagem e grupos, visa contribuir para a valorização da experiência como parte essencial da formação.
A riqueza das temáticas e o rigor teórico-metodológico dos artigos nos convidam a conhecê-los na íntegra e a contribuir para sua ampla divulgação.
Boa leitura!
Carlos Bauer
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