O papel sanitário das rezadeiras brasileiras outrora e agora: ressignificações e continuidades

Yls Rabelo Câmara, Lia Machado Fiuza Fialho

Resumo


Esse levantamento bibliográfico nasceu de nossa inquietação no pós-doutorado quanto ao estudo da importância das rezadeiras brasileiras no passado e no presente. Sua gênese em terras brasileiras deu-se no início da colonização do Brasil, quando para cá rumaram suas antecessoras juntamente com bandeirantes, degredados, físicos, barbeiros e parteiras. Mesclando seus saberes ao dos autóctones e, posteriormente, ao dos escravos africanos que para aqui foram traficados, essas provedoras populares de cura têm-se mantido operantes até os dias correntes, driblando as várias perseguições que vêm sofrendo ao longo desses cinco séculos, ressignificando seu papel e adaptando-se à realidade de seus contextos. Para embasar nossas colocações nesse artigo, fundamentamo-nos em teóricos basilares da área como Câmara, Sanz-Mingo e Câmara (2016), Conceição (2008), Rosario et al. (2014), Stancik (2009) e Theotonio (2011) – para citar alguns. Concluímos que mais de quinhentos anos após sua chegada em terras brasileiras, as rezadeiras têm se mantido como uma referência de provisão de saúde em níveis físico, mental, espiritual e social; foram e são imprescindíveis no passado e no presente; serão necessárias, seguramente, no futuro e por isso sua repaginação constante tem sido de fundamental importância para a sua continuidade.


Palavras-chave


medicina popular; repaginação; rezadeiras brasileiras

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DOI: https://doi.org/10.5585/eccos.n59.14185

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