WAGNER, Izabela. Bauman: uma biografia. Tradução de Carlos Alberto Medeiros. São Paulo: ZAHAR, 2020. 645 p.

Ana Maria Haddad Baptista, Renato Fábio Espadaro

Resumo


Em se tratando de biografias diversos aspectos devem ser considerados. O principal deles: a desconfiança. Muitas vezes um ponto que passa despercebido pelos leitores. Por que a razão da desconfiança? Porque o biógrafo tende a atenuar as fragilidades do biografado, assim como aumentar suas qualidades. Nada mais humano. Como separar razão de paixão? Ou razão de emoção? Quase impossível.

A biografia de Zygmunt Bauman ( 1925-2017), publicada recentemente,  traz para nós uma rara combinação entre razão, sensibilidade e, sobretudo, rigor. A biógrafa e pesquisadora, Izabela Wagner, é pouco conhecida no Brasil. Nasceu na Polônia. Professora de sociologia no Collegium Civitas em Varsóvia, fellow do Institut Convergences Migrations, localizado em Paris, e do Bauman Institute, na Universidade de Leeds, Inglaterra. Atualmente reside na Sardenha onde atua em campos de refugiados.

Poucas biografias podem ser consideradas no mesmo nível. Izabela Wagner deixa claro para os leitores sua metodologia: "A abordagem usada neste trabalho  está entranhada na tradição sociológica da Universidade de Chicago, onde, em meio a um rápido influxo de imigrantes,  um grupo de acadêmicos desenvolveu as ferramentas para analisar as trajetórias de vida das pessoas" (p.513).

Bauman possui uma extensa produção de livros. Suas obras foram traduzidas para mais de trinta idiomas. Mas nem de longe expressam o longo caminho que o autor polonês teve de percorrer para que ficasse tão conhecido e expressivo como uma referência, mundial,  em inúmeras áreas do conhecimento.

A obra em questão possui uma introdução, quinze capítulos e uma conclusão. Além disso, cada capítulo possui, no final do livro,  notas que explicam as inúmeras referências usadas por Izabela Wagner. Uma extensa bibliografia completa fontes usadas pela autora. Diversas fotos, das diferentes etapas do biografado, ilustram momentos expressivos de Baumam e sua família.

Nos primeiros dois  capítulos do livros a biógrafa tem como foco a infância de Bauman. Localiza, de forma detalhada, as condições de nascimento do sociólogo polonês e suas origens maternas e paternas, ambas, judaicas. Nessa medida, a autora, durante todo o livro, como ela mesma explica,  busca a identificação de Bauman. Isto é, em que medida ser um judeu e um polonês  se interseccionam para defini-lo? Naturalmente, não poderia faltar a conduta do biografado na escola. Ele se mostrou, desde as séries iniciais, dono de um raro talento. Ou seja, um  estudante que já se destacava entre os colegas pelo seu compromisso com a escola. Todavia, foi muito perseguido pelos seus colegas e professores por ser de origem judaica. A Polônia (e não somente)  discriminava, de maneira injusta, os judeus, assim  como os perseguia de forma velada e, muitas vezes, de forma explícita. Nessa medida, Bauman foi severamente motivo de gozações e até de violência física entre os colegas. Um dos seus refúgios foi a literatura. Sentia-se isolado e solitário. E os livros lhe davam um certo conforto. Em suas palavras: "A judaicidade era para mim quase um assunto de família – os únicos judeus que eu via e conhecia eram parentes. Isso tornou minha judaicidade um tema prático em vez de teórico" (p.39).

Importante destacar que Izabela Wagner possui um conhecimento histórico e sociológico incomuns, visto que enquanto vai aos pontos centrais de Bauman, localiza-o  histórica e sociologicamente. Impossível não notar o grau de seriedade e exatidão da biógrafa no que se refere às fontes consultadas, aliadas à sua própria vivência na Polônia. E quem ganha com tal abordagem é o leitor. Gradativamente conduzido a aspectos históricos da Polônia e de outros países do leste europeu que raramente são mencionados em livros de história publicados no Brasil.

Com a proximidade da Segunda Guerra Mundial a família de Bauman se viu totalmente ameaçada. O cerco nazista se fazia cada vez mais agudo. Momentos decisivos, que, em grande parte determinariam o futuro do sociólogo polonês como afirma Izabela Wagner. Os capítulos três, quatro e cinco, estão focados na fuga de Bauman e sua família para a Rússia como refugiados. A intensa gama de privações que a família passou são narradas com detalhes e mostram como a sobrevivência foi superada graças, em grande parte, à flexibilidade, em todos os sentidos, da mãe de Bauman: Zofia.  E, também, ao raro talento do biografado. Ou seja, de se adaptar com talento, inteligência e sensibilidade ao que lhe era  designado quando convocado pelo exército polonês sob o controle do Exército Vermelho. Havia, inclusive, as dificuldades com a língua. Em tal cenário Bauman é localizado como uma pessoa que mostrava claros sinais de um grande humanista. Buscava, habitualmente, contornar os conflitos éticos e existenciais aos quais era exposto juntamente com sua família. "As  leituras de Bauman teriam um poder libertador, abrindo seus olhos para novos mundos e talvez oferecendo um contraponto à poderosa propaganda stalinista" (p.94). Em diversos momentos da biografia Izabela ressalta o quanto Bauman acreditava que o socialismo poderia reparar  grandes injustiças sociais, em especial, as da Polônia.

Ao mesmo tempo uma das grandes ambições de Bauman era dar prosseguimento aos seus estudos. E assim o fez. E foi na Universidade, ainda na Rússia,  que conheceu Janina.  Sua esposa durante sessenta anos e de importância vital para o biografado. Janina era uma mulher intelectualmente ativa e se envolvia (com grande grau de interferência) com os projetos do sociólogo polonês.

Os capítulos seis, sete e oito estão centrados na volta (da Rússia) de Bauman e a família para a Polônia, assim como em suas dificuldades com o retorno. A Polônia, mesmo com o término da  Segunda Guerra Mundial, continuou a discriminar, de forma vergonhosa, os judeus. Embora Bauman ocupasse um lugar de certo destaque como oficial, sofreu. Resolve, em meio a uma série de dificuldades, investir numa carreira acadêmica e conclui o seu doutoramento.

Ao mesmo tempo percebe, com amargura, que seus ideais socialistas passavam muito longe do que havia imaginado e a que o regime, outrora, tinha prometido. Decepciona-se. Posiciona-se com vigor e argumentos em solo polonês. Sente-se um verdadeiro estranho em seu próprio país. A biógrafa enfatiza que  isso provocou dores existenciais em Bauman bastante profundas.

Um ponto de destaque na biografia, em momentos variados,  é a relação que Bauman  mantinha com a família. Pai de três filhas jamais se omitiu de compartilhar, de fato, com sua esposa, as tarefas caseiras e que envolviam as filhas. Inclusive, gostava muito de cozinhar não somente para a família como para seus amigos.

Nos capítulos nove, dez e onze  a biógrafa  centraliza suas atenções  em relação às intolerâncias que os judeus sofreram na Polônia. Um fato surpreendente para Bauman, ou seja, mesmo após o término da Segunda Guerra Mundial a discriminações perduravam, assim como as perseguições. E o biografado resolve ir embora da Polônia. "Não havia bombas caindo, não havia cadávares, mas os motivos da fuga eram os mesmos. Eles estavam sendo punidos por sua judaicidade. Estavam partindo para sempre" (p.360). As mudanças constantes de Bauman foram aprimorando sua perspectiva em relação ao mundo e cultivando profundas reflexões a respeito das relações sociais, das misérias humanas e, sobretudo, da necessidade das mudanças e transformações pelas quais  o mundo deveria passar.

Bauman e a família, em 1968,  vão para Israel onde a recepção não foi das mais calorosas. Embora, de acordo com as fontes de Izabela Wagner, ele tivesse muitas e muitas possibilidades objetivas de emprego. "Eu queria continuar sendo o que era, um sociólogo, e me estabelecer outra vez nesse papel em um novo ambiente era para mim uma questão de honestidade pessoal e autorrespeito" (p.393). Em Israel vai trabalhar na Universidade de Tel Aviv sempre com inúmeras dificuldades a começar pelo não domínio do hebraico. Ele e a família permanecem em Israel por três anos. Mas precisava tomar uma decisão mais definitiva. Que realmente satisfizesse seus sonhos mais amplos em relação ao seu futuro e de sua família.

Os capítulos finais do livro, ou seja, doze, treze, quatorze e quinze estão centrados em acontecimentos  que tornaram Bauman, mais do que nunca, conhecido em diversos países do mundo. A biógrafa destaca que ele resolveu aceitar  trabalhar na Universidade de Leeds na Inglaterra a partir de um convite que o surpreendeu. "A Universidade de Leeds não era uma instituição de prestígio, mas um lugar que preparava profissionais para a indústria e a administração locais" (p.399). Apresentou propostas em relação ao desenvolvimento da sociologia  no  Departamento de Estudos Sociais para o  qual ia trabalhar. "Ele buscava reforçar a posição da sociologia com a criação de uma escola de pensamento social. Essa proposta suscitou algumas preocupações entre os futuros colegas" (p.403).

Bauman trabalhou durante muitos anos na Universidade de Leeds. Teve inclusive cargos administrativos que detestava e achava  uma perda de tempo.  Observava, sofria e pensava muito nas contradições internas do sistema como um todo. Aposentou-se e, finalmente, pode se dedicar, mais de perto,  como sonhava, a escrever. "Modernidade líquida foi o primeiro de uma longa série de livros sobre fenômenos ' líquidos' em diversos campos. A liquidez era a base da construção de um mundo teórico pós-moderno" (p.431).

Izabela Wagner não omite certas críticas que se fazem a Bauman. Como por exemplo de, muitas vezes, se repetir em seus livros. Em outras momentos, sempre se fundamentando em depoimentos daqueles que conheceram o biografado mais de perto, de que ele tinha atitudes ásperas quando contrariado em seus objetivos e projetos. O sociólogo tinha enormes dificuldades de trabalhar em equipe. Preferia o trabalho solitário.

Um outro ponto que deve ser mencionado dos capítulos finais, do livro em questão, foi a dor de Bauman ao perder sua companheira Janina. Ele ficou um ano imerso em luto absoluto. Quase morreu de solidão e de dor. Mas resolve reagir após a insistência de amigos e de suas filhas. Conhece uma mulher que vai acompanhá-lo até o fim de seus dias, ou seja: Jasinska-Kania. Eles possuíam um monte de projetos em comum. E, na verdade, de acordo com os amigos ela salvou Bauman. Ele ganhou uma vida nova após a morte de sua primeira mulher.  Com isso ainda conseguiu, apesar de sua idade, viajar por quase todo o planeta dando palestras, cursos e escrevendo, praticamente, um livro por ano.

Existem diversas razões para se ler a biografia de Bauman. Destaque-se, como foi dito no início deste texto,  a metodologia da biógrafa. Ela demorou anos e anos para finalizar a biografia. Consultou, sistematicamente, uma pluralidade fontes documentais. Buscou a diversidade de vozes daqueles que conviveram com Bauman  de forma mais próxima ou não. Recorreu a escritos mais íntimos do biografado com o cuidado de não violar sua privacidade. Recorreu a fontes bibliográficas, de grande importância,  o que se comprova pela lista de livros que integram o livro. Acrescente-se a isso um estilo de escrita que flui. Muitas vezes o excesso de informações pode tornar um texto desinteressante. Não é este o caso.

Uma outra razão importante para que se leia este livro é perceber de forma mais aproximada a trajetória de um homem que manteve suas posições políticas e éticas em primeiro plano. Bauman tem sido citado como uma referência para diversas áreas do conhecimento. De certa maneira sempre acreditou em valores humanos e existenciais que ajudam a humanidade.  E, sobretudo, na solidariedade enquanto uma virtude sem precedentes.

 


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DOI: https://doi.org/10.5585/eccos.n57.19422

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