“Sô peto escuro igual o meu pai”: rastros, leituras do mundo e a construção de práticas antirracistas na educação infantil

Autores

DOI:

https://doi.org/10.5585/2025.29803

Palavras-chave:

racismo estrutural, infâncias negras, rastro;, leitura do mundo, educação antirracista

Resumo

Este artigo analisa as manifestações do racismo na Educação Infantil a partir de uma revisão crítica dos dados e conclusões de pesquisas de quatro dissertações de mestrado desenvolvidas na Rede Municipal de Educação de Santo André/SP. Com base nas categorias analíticas de “rastro”, proposta por Walter Benjamin, e “leitura do mundo”, na perspectiva de Paulo Freire, propõe-se analisar de que maneira essas instituições de Educação Infantil vêm construindo práticas pedagógicas antirracistas e compreender como os conceitos benjaminiano e freiriano podem contribuir para essa construção. Parte-se do entendimento de que o racismo constitui uma estrutura histórica, política e institucional que incide precocemente sobre as infâncias negras, produzindo marcas nas subjetividades, nas interações e nos currículos escolares. A análise de conteúdo das dissertações aponta para avanços pontuais na implementação da Lei nº 10.639/03, mas, também, evidencia desafios que persistem, como a ausência de representatividade, a superficialidade das abordagens e a insuficiência de formação docente. Defende-se que a escuta atenta dos rastros deixados pelas crianças e a valorização de suas leituras do mundo constituem caminhos potentes para o enfrentamento das desigualdades raciais e para a construção de práticas pedagógicas mais justas, dialógicas e emancipadoras.

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Biografia do Autor

Marta Regina Paulo da Silva, Universidade Municipal de São Caetano do Sul (USCS), Programa de Pós-Graduação em Educação (PPGE), São Caetano do Sul, São Paulo, Brasil

Doutora em Educação pela UNICAMP. Mestre em Educação pela Universidade Metodista de São Paulo. Graduada em Pedagogia e Psicologia. Pós-doutoranda pela Uninove. Docente do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Municipal de São Caetano do Sul (PPGE-USCS). Líder do Grupo de Estudos e Pesquisa Infâncias, Diversidade e Educação (GEPIDE) e do Grupo de Estudos e Pesquisa Paulo Freire.

Jason Ferreira Mafra, Universidade Nove de Julho (UNINOVE), Programa de Pós-Graduação Gestão e Práticas Educacionais (PROGEPE), Departamento de Educação, São Paulo, SP, Brasil

Graduado em História. Mestre e doutor em Educação pela USP. Foi docente nas redes estadual e municipal de educação de São Paulo. É professor e diretor do Programa de Pós-Graduação Gestão e Práticas Educacionais (PROGEPE), da Uninove. É membro do Conselho Editorial do Instituto Paulo Freire e coordenador do Grupo de Pesquisas Ylê-educare: educação e questões étnico-raciais, no CNPq.

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Publicado

19.11.2025

Como Citar

SILVA, Marta Regina Paulo da; MAFRA, Jason Ferreira. “Sô peto escuro igual o meu pai”: rastros, leituras do mundo e a construção de práticas antirracistas na educação infantil. EccoS – Revista Científica, [S. l.], n. 75, p. e29803, 2025. DOI: 10.5585/2025.29803. Disponível em: https://periodicos.uninove.br/eccos/article/view/29803. Acesso em: 16 dez. 2025.
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