OLIVEIRA, Rayssa. Espaços afetivos: habitar a escola. São Paulo: Ed. do Autor, 2021. 143 p

Adriana da Costa Santos, Ligia de Carvalho Abões Vercelli

Resumo


O livro Espaços afetivos: habitar a escola é fruto de pesquisa de Rayssa Oliveira, realizada em 2014. A autora é graduada em Arquitetura pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP), arte-educadora e ilustradora.

No prefácio intitulado “A menina produtora de encantarias”, Ana Beatriz Goulart de Faria discorre sobre como a menina, jovem arquiteta-urbanista, pesquisadora e aprendiz, narra, com ajuda das aquarelas infantis, como habitar as escolas da infância. Defende a ideia de que habitar esses espaços implica uma interiorização do habitante, tornando-se como uma extensão dele. Desta forma, a escola que esta menina nos apresenta precisa valorizar cada canto ocupado pelas crianças como carregado de afetos e propõe considerar os arranjos arquitetônicos e educativos não mais para elas e sim com elas.

 O livro Espaços afetivos: habitar a escola está organizado em seis capítulos. No primeiro, intitulado “O elo do afeto”, a autora convida os leitores a recordar da escola que frequentaram enquanto crianças e trata da profunda conexão afetiva entre pessoas e lugares. Oliveira narra como foi o exercício de cartografar três escolas de Ensino Fundamental localizadas na Região Metropolitana de São Paulo, sendo uma escola municipal, uma estadual e uma que nasceu dentro de um projeto social, juntamente com as crianças participantes, utilizando para isto uma mala munida de papéis e riscadores.

No segundo capítulo, sob o título “Entre bancos e barrancos”, Oliveira narra sobre sua chegada na escola municipal, primeiro lócus de sua pesquisa, o modo como foi conduzida, por uma criança de 9 anos, a conhecer os espaços e como a menina enfatizou seus cantos preferidos, como os barrancos, canteiros e gramados, destacando, no trajeto, os muitos esconderijos possíveis. Neste contexto, surgiu o convite, por parte da pesquisadora, de a criança desenhar estes cantos/esconderijos em forma de mapa e, à medida que os colegas a observavam desenhando, foram se achegando para colaborar na composição gráfica.

No capítulo denominado “A liberdade é um rastro laranja”, a autora narra como aconteceu a pesquisa na escola estadual, segundo lócus. Aponta que no quintal tinha muita terra, a qual propiciava às crianças vivências vibrantes, destacando também a sala com paredes vazadas que ofereciam a possibilidade de as crianças observarem o exterior da instituição. A partir daí, a pesquisadora destaca o uso das soleiras, por exemplo, para se habitar, pois elas dão oportunidade às crianças de estarem em dois ambientes ao mesmo tempo, observando e participando do espaço interno e externo, simultaneamente. A autora também destaca a preocupação das crianças com os detalhes da escola, os quais foram representados em seus desenhos, sendo que um deles se assemelhou muito com a planta oficial do prédio, realizada por um arquiteto. 

No capítulo intitulado “Se não há cantos nem encantos”, Oliveira narra como se deu a pesquisa na escola localizada dentro de um projeto social, situada em uma rua muito arborizada, mas que revela, em seu interior, um espaço enrijecido com muitas grades e crianças aglomeradas, durante o intervalo, no pátio interno coberto. Ao buscar mais informações, a autora se deparou com o medo, por parte dos adultos responsáveis, dos possíveis machucados que o espaço externo pode provocar às crianças e, a partir deste dado, aborda o desencanto de profissionais e responsáveis, e faz uma reflexão sobre a necessidade do diálogo e do desemparedamento escolar.

No quinto capítulo, sob o título “Coleta de miudezas espaciais”, a autora aponta a certeza de que é possível habitar as escolas. Recorda sua própria infância, ao relatar que voltava da escola para casa com os bolsos cheios de miudezas vivas, e agora, como adulta-pesquisadora, também realizou coletas repletas de encantos com os desenhos das crianças sobre os quintais de suas escolas. As crianças revelaram, por meio de seus desenhos, que os cantos, os elementos naturais e esconderijos de suas instituições deixam marcas afetivas. Também ressalta a importância de a escola propiciar tempo para haver, por parte das crianças, a livre exploração autônoma e criativa dos elementos naturais e dos diferentes cantos disponíveis. 

“Sejamos educadores caminhantes” é o último capítulo do livro, no qual Oliveira retoma sua trajetória de pesquisa, mostrando que, junto às crianças, encontra os mais diversos brilhos nos espaços escolares, e propõe caminhadas a cada educador, a fim de coletarem e produzirem riquezas nos diversos cantos da escola, sobretudo nos da área externa. Ressalta que os seres humanos são parte da natureza e viver rodeado dela ajuda a nos manter vivos, além de nos incentivar a conhecer, com olhos atentos e sensíveis, os limites e possibilidades para habitar a escola na qual atuamos como profissionais.

A obra é finalizada com agradecimentos da autora a diferentes colegas, os quais colaboraram na escrita do livro, além das referências bibliográficas que possibilitam aos leitores alargar a leitura sobre a temática, tais como: Manoel de Barros, Gaston Bachelard, Maria Isabel Barros, Jorge Larrosa, Eduardo Galeano, Edith Derdyk, dentre outros. 

Desta forma, recomenda-se a leitura da obra, uma vez que a autora traz reflexões significativas sobre os espaços afetivos presentes na escola, ao narrar sua trajetória como pesquisadora e trazer argumentos claros, embasamento teórico e desenhos infantis que, em conjunto, fazem deste livro uma importante referência para que os educadores compreendam a relevância presente no ato de habitar escolas.


Palavras-chave


espaços afetivos; escola; habitar

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Referências


OLIVEIRA, Rayssa. Espaços afetivos: habitar a escola.

São Paulo: Ed. do Autor, 2021. 143 p.




DOI: https://doi.org/10.5585/cpg.v21n2.21884

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