Esperanças renovadas: perspectivas e proposições

Elaine Teresinha Dal Mas Dias, Carlos Bauer, Leandro Rogério Pinheiro, Maurício Perondi

Resumo


Este número da Cadernos de Pós-graduação, escrito a quatro mãos, encerra o ano de 2022, como o de um clico doloroso e sofrido para toda população nacional, em que pese os maus tratos dados à sociedade, particularmente, à saúde, à educação e à cultura.

Enfrentamos embaraços e obstáculos desencadeados por ações governamentais alheias e distantes do desenvolvimento educacional, em especial, com a restrição de verbas destinadas aos mais destacados órgãos federais, como Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas na Educação (INEP) e a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes). Estes têm, entre outras funções, a organização, a expansão e a consolidação dos programas stricto-sensu espalhados por todas as regiões do país. Vimos, ainda e na mesma direção, escorrer pelos dedos as dotações designadas às Universidades e aos Institutos Federais de Educação, deixando um vácuo estrondoso na produção acadêmica e na continuidade de pesquisas de interesse tecnológico, social e humano nos diversos campos e áreas das ciências.

Vivemos um momento em que as promessas de cidadania e de uma vida digna não foram alcançadas por amplas parcelas da população. E num país caracterizado pelas desigualdades sociais, as problemáticas dos seus mais de 50 milhões de jovens são de crescente e perturbadora complexidade, porque envolvem questões identitárias e culturais, de relacionamento e de comportamento, de ligação com a violência urbana, o consumo de álcool e drogas ilícitas, a ausência de oportunidades no mundo do trabalho, a indiferença, a intolerância e o medo de não encontrarem o seu lugar no mundo.

Nesse quadro desalentador um sopro de oxigenação e expectativas pode ser vislumbrado para 2023, seja pelas prospecções aventadas pelo presidente eleito e pelo que se pode esperar de seus compromissos assumidos até aqui; pelos esforços e o interesse de estudiosos e investigadores que, ao superam as limitações e os desfavorecimentos a que estão submetidos, perseveram e empregam energia na exploração e/ou aprofundamento de questões relativas à Educação e áreas afins; e pelo que nossa juventude vem demonstrando em atos, comportamentos, posicionamentos e como força política disposta a desbravar os âmagos de uma nação estruturada em equívocos, enganos e erros arrasadores e absolutos que têm onerado a maior parte da coletividade brasileira.

Nessa direção, neste número da Cadernos, e contrariamente ao que se descreve e analisa acerca da adolescência e da juventude, temos a satisfação de apresentar o Dossiê “Juventudes e ações políticas”, volume I, sob a coordenação dos professores doutores Maurício Perondi e Leandro Pinheiro da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. No próximo número da Cadernos teremos o volume II. Na sequência, temos artigos que tratam de variados temas, entre outros, os desafios que envolvem a Covid-19, que objetiva avaliar qualitativamente o processo de ensino, usando como tema para ensino a teoria ácido-base; financiamento da educação superior; teses e dissertações que versam sobre educação; educação e trabalho; adolescente e o ato infracional; democratização psicossocial, educação musical e formação humana, matemática e política.

A proposição do dossiê foi maturada no diálogo com pós-graduandos ativistas que participaram de seminário homônimo realizado junto ao Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (PPEDU/UFRGS). Então, após discussões teórico-metodológicas e debates com militantes jovens em diferentes temas (combate ao racismo, pautas de gênero, disputa por territórios, etc.), a chamada a problematizações de pesquisa sobre as ações políticas juvenis contemporâneas, promovidas em diferentes espaços de atuação e desde distintas redes de mobilização social, pareceu-nos tão oportuna quanto necessária.

O cenário político já mencionado, quando observado a partir do diálogo com jovens militantes, mostra-se a uma só vez alentador e angustiante. Se a participação política juvenil pode nos estimular em função da esperança que projeta, não podemos deixar de reconhecer os dilemas e os medos que também a perfazem em arenas de ação aviltadas pela intolerância e pela violência nos últimos anos. Conversar com os jovens ativistas levava a conhecer redes de pertença e suporte à diferença e à luta, porém conduzia igualmente a reconhecer os efeitos da participação e da sociabilidade limitadas pela crise sanitária que nos assolou recentemente. Condição esta agravada por táticas de poder opressivas, que, muitas vezes, não conhecemos em vivências tão encarnadas quanto aquelas narradas por quem tem o próprio corpo como expressão da militância contra hegemônica.

O espaço à escrita sobre a interface entre juventudes e ação política resulta, assim, do anseio de dar continuidade aos diálogos sobre as formas participação dos jovens, de modo a apoiar redes de produção de saberes neste sentido, ainda em meio a lutas pelo reencontro com ares mais democratizantes. A oportunidade de fazê-lo dando voz às pesquisa de estudantes de pós-graduação, como é o caso da maioria dos artigos aqui reunidos, realça nosso propósito ao visibilizar o trabalho de novos pesquisadores, que se associam à problematização do que os jovens propõem como antagonismos e devires à realidade social. Se o tema não é exatamente novo, a forma como ele se apresenta nos textos selecionados nos provocam a identificar continuidades e descontinuidades desde a práxis juvenil, dos diversos espaços e formas do político à deferência pela representatividade autêntica e pela singularidades das experiências.

Para configuração do conjunto de textos neste volume, abarcamos tanto discussões relativas a referentes teórico-metodológicos, quanto diálogos com ativistas e militantes na compreensão dos modos de participação juvenil. O primeiro artigo, Quando juventude não é apenas uma palavra: uma releitura sociológica acerca da categoria juventude, abre discussão introdutória pertinente ao quadro de análise aqui proposto, ao retomar clássica discussão iniciada por Pierre Bourdieu, recorrendo ao contraponto célebre de Mario Margulis e Marcelo Urresti, mas também a autores nacionais para distinguir sociologicamente atributos à juventude.

À sequência, em Os jovens podem participar? Considerações acerca da participação e formação políticas juvenis, temos nova discussão conceitual, neste caso ancorada em revisão de literatura sobre a noção de ‘participação’ e tópicos relacionados, como formação política por exemplo. Assim, discute-se a polissemia do termo e, ademais, a variabilidade das formas de ação, conforme contextos, experiências e situações juvenis, com destaque à preferência dos jovens por modos de participação diversos e/ou divergentes às arenas tradicionais de atuação política.

No artigo Protestos das juventudes latino-americanas durante a pandemia, temos uma leitura do ciclo de protestos no continente latino-americano, com destaque ao Brasil, ao Chile e à Colômbia. Com base na análise documental e na aplicação de questionários, os autores discutem as repercussões do isolamento social durante o período de crise sanitária gerada pela pandemia de COVID19, indicando, por outro lado, a manutenção das manifestações e o uso mais intensivo de tecnologias de informação e comunicação (TICs) na formulação de estratégias de ação.

Em A universidade como espaço de luta: as experiências políticas de jovens militantes de Porto Alegre (RS), a situação historicamente recente de ampliação de acesso ao ensino superior, especialmente para jovens de meios populares e de minorias étnicas e de gênero se faz patente. O texto apresenta itinerários de militância potencializados pela imersão universitária, de modo que, se a participação estudantil não é questão nova no campo das ciências humanas, as interlocuções narradas asseveram o teor identitário-reflexivo e singularista das participações das ativistas, na interface de diferentes redes de ação e filiação política.

Com Ativismo juvenil e os novíssimos movimentos sociais: o movimento Massa Crítica (MC) como significado da expressão política contemporânea em Porto Alegre (2010-2014), passamos mais explicitamente à atuação de coletivos juvenis em espaços não tradicionais. Atento à mobilização juvenil pelo direito à cidade, o artigo problematiza os embates entre políticas públicas e as demandas de ativistas jovens, destacadamente no que tange à pauta da mobilidade por bicicletas na capital gaúcha. Então, o uso de TICs e a organização em rede, considerada menos hierárquica e estatutária, caracteriza as frentes de ação e as diferenças em relação às instâncias que homologam as políticas urbanas.

Por fim, em “Não é só cantar e escrever. É o fazer político também”: a ação política de jovens atuantes em coletivos culturais, são abordadas as narrativas de ativistas do Hip Hop na cidade de Maceió/AL. A atuação em coletivos culturais é interpretada por sua peculiaridade na configuração de ‘política-vida’, atinente aos processos autoidentitários cuja reflexividade realça aprendizagens biográficas.

Esperamos, nessa iniciativa editorial, que as diferentes perspectivas e recortes autorais provoquem novas inquietações e diálogos, especialmente aos interessados na pesquisa com jovens e sobre as derivas políticas virtualizadas nas ações juvenis.


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DOI: https://doi.org/10.5585/cpg.v21n2.23403

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