FERREIRA. S.L. “Educação Profissional e Tecnológica no Rio Grande do Sul”. Curitiba: CRV, 2020.

Luisa Palma Menezes, Mirian Vargas de Alvarenga, Vicente Cabrera Calheiros

Resumo


A obra “Educação Profissional e Tecnológica no Rio Grande do Sul”, de Liliana Soares Ferreira[1], publicada no ano de 2020, pela editora brasileira CRV[2], registra um estudo realizado pela autora. A problematização que deu origem ao estudo versa sobre a historicidade e implementação da Educação Profissional e Tecnológica (EPT) no Estado do Rio Grande do Sul (RS), considerando os contextos sociais, políticos e econômicos de cada momento histórico do RS.

Para compreensão e elaboração de sentidos acerca desta obra, é fundamental considerar as condições nas quais foi produzida. Para isso, é importante frisar uma parte da trajetória acadêmica da autora. Para tanto, destacamos sua formação inicial em Pedagogia e Letras/UNIJUI[3], com a realização de Mestrado em Educação nas Ciências/UNIJUI e doutorado em Educação/UFRGS[4]. Atualmente, trabalha como professora no curso de Pedagogia e atua no Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal de Santa Maria (PPGE/UFSM). É, também, líder do Kairós - Grupo de Estudos e Pesquisas sobre Educação, Políticas Públicas e Trabalho. Produziu dezenas de artigos e livros, dedicando-se ao estudo das categorias: trabalho pedagógico, Pedagogia e Educação Profissional e Tecnológica, sempre tendo como referência a relação entre educação e trabalho.

Nesta obra, por meio de pesquisa fundamentada na Análise de Movimento de Sentidos[5], Ferreira (2020) dedicou-se a investigar a EPT em sua historicidade, observando os movimentos dos sujeitos referentes ao mundo de trabalho, às políticas educacionais e à escola no recorte de tempo referente à historicidade do RS. Com base nesse recorte, a obra registra um estudo realizado sobre a implementação da EPT no RS, tendo como marco histórico, a chegada dos padres Jesuítas (em 1549) até a atualidade, constituindo-se em um estudo que visa a indicar os movimentos que compõem a historicidade da EPT no Estado: a relação entre trabalho e educação, a pedagogia dos jesuítas, a educação militar e os ideais republicanos e positivistas. A partir da introdução, a autora apresenta os objetivos da sua obra. São eles:

 

A. entender a perspectiva de trabalho e educação para o trabalho;

B. analisar quais forças políticas e sociais empenharam-se em projetos de educação para o trabalho no país em cada fase;

C. estabelecer parâmetros de compreensão sobre a intensidade com a qual esses projetos repercutiram e orientavam a educação para o trabalho na forma escolar; e

D. compreender os sentidos dos termos atribuídos à Educação Profissional e Tecnológica, anteriormente à nomenclatura atual, ao longo da história (FERREIRA, 2020, pg. 16).

 

É pertinente sobrelevar o aporte teórico-metodológico, a análise dialética, em que a autora objetivou produzir sentidos aos acontecimentos, o que implica atender aos fatos na condição de processos históricos, constituidor dos seres humanos e compreendê-los, projetando como podem ser de agora em diante. (FERREIRA, 2020). Dessa forma, a autora estudou Educação Profissional e Tecnológica, observando os limites e contradições nos movimentos dos sujeitos quanto ao trabalho, ao mundo do trabalho, às políticas educacionais e à escola.

No que se refere à organização da obra, além da introdução, o livro é composto por mais oito capítulos, nos quais Ferreira (2020) apresenta o desenvolvimento histórico da Educação Profissional no RS até o surgimento do que, atualmente, é chamado de EPT.

O primeiro capítulo do livro aborda a temática, na atualidade. A autora relata que iniciará pelo momento presente, ou seja, pela EPT como uma política educacional centrada na educação para o trabalho. Nesse sentido, evidencia a existência de uma relação pragmática de preparação de mão-de-obra distante de uma formação integral, embasada na dualidade característica da historicidade brasileira, como sociedade marcadamente capitalista. Como demonstrado na obra, esta dualidade se caracteriza pelo embate entre aqueles que possuem os meios de produção e aqueles que possuem a força de trabalho.

Por sua vez, o último capítulo apresenta a criação, em 2008, da Rede Profissional e Tecnológica e dos Institutos Federais, os quais potencializaram transformações no meio organizacional da EPT, respondendo às demandas sociais do trabalho e do emprego, em instituições que abrigam ensino, pesquisa e extensão. Assim, inicia uma nova possibilidade de acesso à educação pública para o trabalho e a profissão, com a estrutura e recursos humanos necessários para sua efetiva realização (FERREIRA, 2020).

Desse modo, se analisada a configuração geral do livro, o primeiro e o último capítulo descrevem e destacam os projetos e iniciativas para a EPT no país, os quais por consequência, no RS, foram demarcados por questões sociais e caracterizadas por desigualdades.

Com a leitura dos capítulos II, III e IV, observa-se que Ferreira (2020) apresenta, inicialmente, um período marcado pela influência da ação jesuítica, no qual a educação – dos povos originários, indígenas – era voltada para o trabalho, demandando uma especialização obtida por meio de processos educativos. Nesse período histórico, uma pequena margem da sociedade tinha acesso à cultura letrada. Mesmo com a mudança do Brasil Colonial para o Império, a educação continuava sendo privilégio para poucas pessoas, o dualismo educacional se fortaleceu, expandindo a educação para as elites e controlando a educação para os trabalhadores, que apesar da demanda social, pouco cresceu. Durante a República, a escola – instituição social – assumiu um papel de mediadora entre o governo e o povo, marcando a reorganização e a sistematização das demais instituições. Por outro lado, o ensino público ampliou-se lentamente, enquanto as aulas privadas se expandiram com celeridade. Essa foi uma distinção social que indicou um lugar social para o trabalho.

Nos capítulos V e VII, a análise recai sobre a intensificação de políticas educacionais elaboradas e promulgadas para a Educação Profissional. Por meio dessas políticas, houve uma aproximação ao mercado industrial capitalista mundial, demandando maiores e melhores projetos educacionais e profissionais, aprofundando a tensão com a função propedêutica. A EPT, conforme demonstra Ferreira (2020), caracterizava-se como um campo promissor, no entanto, por haver um afastamento entre Trabalho e Educação – característica presente no capitalismo – o desenvolvimento da Educação Básica não acompanhava no mesmo ritmo, visto que se encontrava em uma situação precária e contingente.

Durante a leitura do livro, o capítulo VI: “1950 a 1970: avanços e retrocessos na EPT” foi que despertou maior interesse, pois, nele, Ferreira (2020) traz as características que colocaram em relevo a dicotomia de um sistema, mediado pela educação: com uma proposta voltada às elites, de um lado; e de outro, uma proposta para as classes populares. A autora argumenta que o período de 1950 a 1970 foi positivo se analisado pelo viés da expansão e financiamento da EPT para o RS, entretanto, a Educação Básica, da alfabetização à conclusão, encontrava-se em situação precária.

A autora preocupa-se em apresentar cada momento histórico, abordando acerca dos sujeitos, contextos sociais, políticos e econômicos. Outrossim, afirma que o objetivo da EPT deve ser a integração entre educação e trabalho. Por essa razão, considera-se a obra “Educação Profissional e Tecnológica no Rio Grande do Sul” fundamental para a compreensão desde a implementação da EPT até os desafios por ela percorridos ao longo do tempo. De acordo com a autora, faz-se mister entender a Educação Profissional e Tecnológica na sua totalidade, ou seja, como produção humana, um projeto de sociedade, resultante de uma concepção de ser humano, em específico, de trabalhador(a).     

A formulação da Rede de Educação Profissional e Tecnológica foi fator essencial para estabelecer garantias de oferta pública de educação aos trabalhadores. Porém, mesmo com o desenvolvimento dela, não há uma superação no sentido de universalizar a educação e o acesso ao mundo/mercado de trabalho, como a autora abordou em 2020 e, compreende-se, atualmente, parece além de um sonho, um projeto utópico.

 


[1] Doutora em Educação. Professora do Programa de Pós-graduação em Educação da Universidade Federal de Santa Maria, Santa Maria, Rio Grande do Sul, Brasil. E-mail: anaililferreira@yahoo.com.br.

[2] Livro produzido com base em projeto de pesquisa desenvolvido com apoio CAPES/FAPERGS, Edital 04/2018, Processo 18/2551-0000550-9.

[3] Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul.

[4] Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

[5] A autora se refere à Análise dos Movimentos de Sentidos como um fundamento teórico-metodológico, cuja centralidade está no discurso, entendendo este como uma materialidade possível de ser analisar em suas contradições, movimentos, sentidos, sendo possível, por meio destes, indicar suas características, que podem ser sintetizadas sob a forma de categorias.


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DOI: https://doi.org/10.5585/eccos.n61.21747

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