VIEIRA, Natália Francisquetti; SILVA, Marta Regina Paulo da. Como nó e nós: perspectivas para a avaliação documentada e participativa na creche. São Paulo: Amélie Editorial, 2021.

Rosa Maria de Miranda Duarte, Maurício Silva

Resumo


O livro Como nó e nós trata do tema avaliação no âmbito da Educação Infantil – mais especificamente no contexto das creches –, baseado em uma tese de mestrado (A avaliação documentada e participativa na creche no contexto de pandemia: narrativas da trajetória de aprendizagem), defendida em 2021 por Natália Francisquetti, sob orientação da Profª Dra. Marta Regina Paulo da Silva.

Natália Francisquetti é mestre em Educação pela Universidade Municipal de São Caetano do Sul e graduada em Pedagogia pela Universidade Metodista de São Paulo. Atualmente é professora de Educação Infantil na Prefeitura Municipal de Santo André e professora de Ensino Fundamental I na Prefeitura Municipal de São Caetano do Sul. Tem experiência na área de Educação atuando principalmente nos seguintes temas: avaliação da aprendizagem, documentação pedagógica, participação política da criança e creche.  É autora de artigos científicos na área da educação. Já Marta Regina Paulo da Silva é doutora em Educação pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e mestre em Educação pela Universidade Metodista de São Paulo (UMESP). É Docente-pesquisadora do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Municipal de São Caetano do Sul, líder do Grupo de Estudos e Pesquisa Infâncias, Diversidade e Educação (GEPIDE) e coordenadora do Grupo de Estudos e Pesquisa Paulo Freire.

O prefácio da obra conta com as palavras da doutora em educação Amanda Cristina Tegno Lopes Marques, ressaltando que a avaliação tem sido atrelada, em nossa sociedade, à questão da promoção ou retenção, da atribuição de notas ou conceitos. Ainda há muita dificuldade em perceber a avaliação como um instrumento que permite ao professor refletir sobre sua prática e buscar caminhos que auxiliem a melhorar o processo ensino aprendizagem das crianças. O professor, para trabalhar no contexto de uma avaliação mediadora, precisa desenvolver um olhar mais sensível, que lhe permita enxergar as potencialidades e avanços das crianças. Além disso, no âmbito da educação infantil, é imprescindível desenvolver a capacidade de escuta de todos os agentes envolvidos no processo: crianças, famílias e educadores.

A obra é fruto de uma pesquisa de intervenção em uma creche do município de Santo André com um grupo de crianças de 2 e 3 anos, com o objetivo de construir uma avaliação do processo de aprendizagem das crianças em um contexto pedagógico que permitisse a participação delas, das professoras e dos pais. Em março de 2020, iniciaram-se as medidas de isolamento devido à pandemia da COVID-19, que levaram ao fechamento das unidades escolares, passando o atendimento das crianças a ocorrer de modo remoto, o que trouxe inúmeros desafios para o trabalho dos professores.

Na creche em que ocorreu a pesquisa, a equipe docente organizou grupos de WhatsApp com a participação das professoras, auxiliares e um familiar de cada criança. Nesses grupos, as professoras compartilhavam algumas atividades que faziam parte do cotidiano das crianças na creche. As professoras compartilhavam sugestões de brincadeiras, modelagens, desenhos e realizavam chamadas de vídeo para contação de estórias. Durante o trabalho educativo realizado pela equipe docente, foi produzida uma documentação do percurso de aprendizagem das crianças, denominado “Como nó e nós”, utilizando a metáfora do , que fala sobre o necessário vínculo do grupo para, enfim, construir o nós, ou seja, a identidade coletiva do grupo. A documentação serviu como meio para registrar o percurso de aprendizado das crianças e o projeto desenvolvido remotamente.

O livro trata dos fundamentos teóricos da avaliação de acompanhamento, com base nas pedagogias participativas que trazem, no seu bojo, a importância da participação das famílias, crianças e docentes na avaliação.

A Lei de Diretrizes e Bases da Educação traz algumas bases para o trabalho na educação infantil: reconhece o cuidar e o educar como atos indissociáveis na educação da infância e ressalta a importância da continuidade e complementação, pela escola, dos cuidados e educação da família. A atuação compartilhada pela família e pela escola no processo de cuidar e educar é fator importante para o desenvolvimento integral das crianças.

As Diretrizes Curriculares Nacionais apresentam a criança como um sujeito histórico, de direitos e produtor de cultura. Sob essa perspectiva, as autoras afirmam que é preciso abandonar a visão “adultocêntrica” entre adultos e crianças e horizontalizar as relações de modo que as crianças possam ser ouvidas, opinar e, eventualmente, tomar decisões sobre situações que lhes dizem respeito.

A avaliação, no contexto das pedagogias participativas, é um processo inseparável do trabalho pedagógico. Deve ser realizada, como afirmam os documentos oficiais, de maneira processual e contextualizada, respeitando a criança como ser histórico e social. Sendo assim, as fichas de avaliação, ainda utilizadas em algumas instituições, não atendem a esses requisitos, pois tentam homogeneizar os percursos de aprendizagem das crianças e, consequentemente, são excludentes. Esse tipo de avaliação classificatória não faz um acompanhamento das aprendizagens das crianças, não contribui para a reflexão e planejamento do professor; apenas atende a questões burocráticas.

Assim, a documentação pedagógica, como explicam as autoras, torna-se essencial, pois permite acompanhar o percurso de aprendizagem das crianças, refletir sobre o processo e replanejar a prática educativa. A documentação pedagógica é uma maneira de dar visibilidade ao percurso de aprendizagem das crianças. É importante observar que a documentação pedagógica não pode ser vista como uma reunião de registros coletados de maneira aleatória. É preciso que haja uma intencionalidade na coleta e organização destes registros.

Esta pesquisa procurou produzir a documentação pedagógica com a participação das crianças e famílias. A documentação foi utilizada na creche, no contexto pandêmico, para permitir o acompanhamento, pela família, e tornar visível a aprendizagem das crianças. No contexto da pandemia, a escuta das crianças foi realizada por meio de áudios, chamadas de vídeo, fotos, filmagens e mensagens escritas enviadas pelas famílias nos grupos de WhatsApp. O processo documental na creche foi realizado por meio de imagens, narrativas escritas e as “mini-histórias” (FOCHI, 2013). Mini-história, tal como apresentada neste estudo, são breves narrativas sobre algumas vivências, experiências e, consequentemente, percursos de aprendizagem das crianças, acompanhados de imagens que ilustram os registros. A documentação das atividades oferecidas no atendimento remoto tornou visível o percurso de aprendizagem, revelando, desta forma, as teorias, ações, hipóteses, questionamentos, vivências de cada uma das crianças. Essa documentação foi impressa e entregue às crianças e às famílias e foi acordado que as famílias gravariam um vídeo das crianças durante a apresentação desse documento. O contato das crianças com essa documentação oportunizou-lhes realizar um processo de metacognição, ou seja, a retomada do seu percurso de aprendizado, a reflexão sobre os seus caminhos de aprendizagem e suas conquistas. É claro que é preciso pontuar que uma avaliação, no contexto da pandemia, tem suas particularidades e limitações, tendo em vista que, muitas vezes, não foi possível ter um contato mais frequente com as crianças nos grupos de WhatsApp, devido aos compromissos da família. Também não houve a possibilidade de observar as crianças brincando e interagindo. Ainda assim, a avaliação deixou evidente a intencionalidade docente e deu visibilidade às produções das crianças,

As autoras concluem que a construção de uma avaliação que atenda às especificidades da creche é um desafio de todas as instituições. É preciso construir uma avaliação que acompanhe o percurso dos meninos e meninas e relate a ação educativa. Para tanto, é primordial garantir a participação da família, dos e das docentes e das crianças neste processo. A documentação pedagógica é fundamental, pois oferece elementos para a reflexão e o replanejamento da ação educativa. Além disso, oferece a todos os envolvidos a oportunidade de serem ouvidos, participar e dialogar.

O ebook propõe uma discussão necessária sobre uma nova cultura de avaliação, que precisa ser construída no âmbito da Educação Infantil. A avaliação deve dar visibilidade ao percurso de aprendizagem da criança e possibilitar a participação das famílias neste processo. Esta avaliação deve estar a serviço da reflexão e replanejamento da ação educativa. É preciso que os professores e as professoras desenvolvam um olhar sensível, investigador, que enxergue as potencialidades das crianças e tenha como premissa construir relações mais horizontais e respeitosas entre adultos e crianças.

Esta obra é indicada para estudantes de Pedagogia e áreas afins, docentes, gestores e pesquisadores da infância, pois dá visibilidade a um tema sensível e ainda pouco discutido no âmbito acadêmico – a avaliação na Educação Infantil. Oferece elementos para refletirmos sobre uma práxis educativa, por meio das “mini-histórias”, que revelam uma criança protagonista e produtora de cultura, uma família participativa e educadores atentos e sensíveis às falas e ações de todos os integrantes do processo. Há um longo caminho a trilhar, mas iniciativas, como a que foi apresentada nesta pesquisa, podem auxiliar na busca de novas alternativas.


Palavras-chave


Educação, Educação Infantil, avaliação

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DOI: https://doi.org/10.5585/eccos.n60.21505

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