A VIDA E A OBRA EDUCACIONAL DE KRUPSKAIA (1869-1939)

Solange Regina Leoni, Jônatas Gomes de Oliveira

Resumo


O livro Krupskaya: acepções históricas e a práxis política de uma educadora revolucionária (1869-1939) faz parte de um conjunto de obras que, tem como o seu principal objetivo evidenciar a contribuição social e a atualidade política dos pressupostos pedagógicos formulados pela educadora russa Nadezhda Konstantinovna Krupskaya.

Em busca desta meta, seus autores procuram contextualizar sua práxis revolucionária e o seu legado na construção da proposta de uma pedagogia socialista engendrada no solo histórico, social e político da Revolução Russa de 1977, mas, também se preocupam em verificar como as formulações teóricas, metodológicas e educacionais de Krupskaya continuam inspirando as experiências de movimentos sociais e políticos dos trabalhadores no mundo todo, como é o caso do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), no Brasil.

O livro é subdividido em sete seções que buscam contemplar as várias frentes de atuação dessa pedagoga russa.  Com essa finalidade, após uma parte introdutória, os autores realizam aquilo que denominam como breve esboço biográfico, traz a trajetória de Krupskaya caracterizando a atuação sócio-política frente a particularidades que condicionaram tal atuação.

 Nascida em 26 de fevereiro de 1869, iniciou aos 14 anos seus trabalhos como professora particular no período noturno. As primeiras relações com as ideias socialistas e contato com a obra marxiana leva a assumir compromisso com a luta pela tranformação socialista. Presa e deportada em 1896, alegou ser noiva de Lenin para conseguir a transferência e na Sibéria se casam. Participa das tarefas e logística de distribuição do jornal “Iskra”, faz as relações entre o Comitê Central bolchevique e a direção exilada após a revolução de 1905, desenvolve um trabalho político ligando os operários da região ao trabalho realizado na Rússia. Publica livretos, panfletos, artigos e funda ainda a revista Revista “A caminho de uma nova escola” (Na Putiakh k Novoi Shkole) e organiza o sistema de bibliotecas do país.

Ocupa cargos importantes no Ministério da Educação (Narkompros) e na Seção Pedagógica da Comissão Científica Estatal, ao final da década de 1920, o fechamento do regime político levou a vários dos principais aliados de Krupskaya na elaboração da política educacional e na construção da pedagogia socialista e assumir a redação de artigos que foram utilizados como instrumentos de propaganda e exaltação das conquistas soviéticas para as novas gerações

Na seção seguinte, As contribuições de Krupskaya no campo educacional, evidencia-se o papel fundamental da educadora na criação de uma imensa rede de bibliotecas, na realização de campanhas de incentivo à leitura e acesso às publicações, antes um privilégio das elites, tudo como parte do esforço pela alfabetização.

Entre as estratégias, incentivou a prática da leitura em ambientes variados e inusitados, como as fábricas, cooperativas agrícolas, guarnições militares, dentre outras. Krupskaya foi responsável, também, pela organização dos sistemas de informação científica na União Soviética.

A seção A URSS como laboratório da pedagogia socialista, evidencia o interesse de Krupskaya pelos sistemas de ensino mais avançados, que acompanhava a evolução da Escola Nova. Além disso, acreditava numa futura sociedade sem classe, tendo como principal instrumento a educação das massas, e defendia a proposta de uma educação partiária onde a escola teria a função de ensinar aos jovens os objetivos do partido comunista e seu protagonismo estudantil.

A implantação da escola do trabalho apresenta a 1º Declaração, adotada pelo Comissário do Povo, em 13 de novembro de 1917, que traz como principais metas a educação em tempo integral e a erradicação do analfabetismo.  Com a contribuição direta de Krupskaya, os bolcheviques formularam a concepção geral de gestão escolar, descentralizado e com ampla participação da população, num sistema onde o conceito “público” estaria mais ligado à comunidade e não às ordens diretas do Estado. Em 16 de outubro de 1918 foi adotada a Escola Única do Trabalho, nome atribuído a todas escolas onde o termo soviética era acrescido. A Declaração, em linhas gerais, estabelecia a educação como sendo obrigatória e gratuita, turmas mistas de meninas e meninos, além de reorganizações administrativas como: eleições para os cargos de professores e médicos; criação do cargo de instrutor escolar para fazer a ligação entre o Conselho e a escola; e aperfeiçoamento da gestão democrática com a criação do conselho escolar.

 O valor do trabalho, apresenta a defesa da autora pela construção de uma escola livre, emque o pleno desenvolvimento das crianças se daria pela integração ao trabalho produtivo, com a participação e vinculação das instituições proletárias como os sindicatos e as cooperativas, preparando e formando lutadores sociais. Dessa forma esta seção têm o objetivo de introduzir discussões sobre aspectos históricos e de como o processo revolucionário em curso condiciona a construção de novas abordagens e, sobretudo, referênciais ontológicos sobre a relação entre educação e trabalho, evidentemente sob a perspectiva da consolidação de uma sociedade socialista.

Os reflexos dessa atuação e desse contexto estão presentes na seção As transformações conceituais e políticas no pensamento de Krupskaya, onde após a revolução de 1917 seu pensamento evolui do enfrentamento a algumas direções bolcheviques resistentes às reformas educacionaisem particular a ala dos sindicalistas do Portidos. A consolidação do poder de Lenin e seus trabalhos na esfera educacional vão gradativamente se adaptando às diretrizes governamentais. Assume a redação de artigod que foram utilizados como instrumento de propaganda e exaltação das conquistas sovieticas para as novas gerações. Que expressavam a defesa da doutrina do socialismo num só país e o abandono da perspectiva da revolução internacional evidenciando seu contato com a obra marxiana e a assunção de compromissos relacionados às lutas pela consolidação de uma sociedade socialista.

A atuação de Krupskaya, bastante ampla e intensa, é permeada pelo seu próprio processo de transformação conceitual: destacou-se nas tarefas de organização e formação da militância política revolucionária e ocupou cargos importantes no Ministério da Educação (Narkompros).

Na Seção Pedagógica da Comissão Científica Estatal, afastou-se das atividades relacionadas à educação, cumprindo tarefas de representação diplomática; assumiu a redação de artigos que foram utilizados como instrumentos de propaganda e exaltação das conquistas soviéticas para as novas gerações, textos supostamente baseados na herança política de Marx e Lenin, mas que expressavam a defesa da doutrina do socialismo num só país e o abandono da perspectiva da revolução internacional.

Na seção A repercussão da obra de Krupskaya no Brasil, os autores abordam a proposta pedagógica do MST que procurou inspirar-se em experiências históricas desenvolvidas na URSS, mas não de forma meramente mecânica e descontextualizada, pelo contrário, o conjunto de conhecimentos que são desvelados pelos estudantes, em sintonia com o trabalho professoral, busca estabelecer o diálogo crítico com uma gama diversificada de áreas do conhecimento científico em sintonia com a identidade do movimento, do significado e da valorização de sua presença estratégica na luta pelas transformações estruturais na realidade brasileira. No processo de desenvolvimento de sua escolarização, os estudantes são incentivados em sua auto-organização, subvertendo, em sua práxis, as formas tradicionais de poder em que, na sala de aula, o professor é a única e exclusiva autoridade existente.

O livro representa um sucinto, mas ótimo memorial sobre a obra de Nadezhda Konstantinovna Krupskaya, portanto, se constitui em leitura fundamental para todos que pretendem compreender sua experiência teórica, programática, histórica e concreta na implantação da pedagogia socialista na nascente república soviética.

Proporciona, também, conhecer suas contribuições à história da educação, seu papel revolucionário na construção da proposta socialista que superou séculos de opressão, buscou a erradicação do analfabetismo e a possibilidade de acesso da população à educação formal. Esta obra é introdutória à proposta crítica quanto ao papel da escola como instrumento de educação de massas para uma futura sociedade sem classes e que inspiram experiências de movimentos sociais de trabalhadores, dentre eles o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).


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Referências


PEREIRA, Cacau; DELCORSO, Isabella; BAUER, Carlos. Krupskaya: acepções históricas e a práxis política de uma educadora revolucionária (1869-1939). Amazon & Independently published: São Paulo, 2021.




DOI: https://doi.org/10.5585/eccos.n61.21566

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