Estudos sobre desafios atuais e perspectivas para as juventudes brasileiras

Altair Alberto Fávero, Douglas Francisco Almeida dos Santos, Lidiane Limana Puiati Pagliarin

Resumo


A obra “Juventudes Brasileiras – questões contemporâneas” apresenta estudos diversos sobre as Juventudes, considerada como tema atual e fértil para investigação. É uma área do saber complexa, plural e que instiga muita reflexão, principalmente, em um país tão diverso como o Brasil. O livro, publicado em 2021, é organizado por Victor Hugo Nedel Oliveira e Rosane Castilho e composto por 15 textos, além da Apresentação. Todos os capítulos tiveram, como contexto, a relação dos jovens no meio social atual. O livro tem aproximadamente 27 pesquisadores e envolve mais de 19 instituições.

 O primeiro capítulo, de Victor Hugo Oliveira e Andreia dos Santos, intitulado “’Gripezinha? Não! Algo muito grave e preocupante’: as percepções de jovens de Porto Alegre (RS) em relação à pandemia da Covid-19”, aborda percepções e preocupações dos jovens em relação à pandemia. O estudo demonstrou que os jovens, em sua maioria, têm conhecimento sobre a importância das medidas protetivas para diminuir a disseminação do covid-19 e apontam a despreocupação do governo e seu negacionismo sobre a pandemia. O texto afirma que os jovens estão atentos a sua realidade social, com percepção e preocupação social, já que isso afeta direta e significativamente suas vidas. 

O segundo capítulo, de Rosane Castilho, tem como título “O povo quer saber: nos meios acadêmicos, quanto vale um pesquisador de juventudes?”. A autora destaca que a pesquisa é um processo que se organiza de maneira sistemática, mas que, até o final de seu percurso, pode sofrer alterações, pois, ao pesquisar, não se tem total domínio sobre o que pode vir a acontecer, precisando, no processo, redirecionar objetivos e metodologia, buscando novos meios de desvelamento do objeto proposto pelo estudo. Sobre a pergunta do título, ela afirma que a resposta estaria “atrelada ao status da instituição e dos grupos de elite aos quais o mesmo se vincula, pela via da chancela que sustenta o seu poder ou determina a sua ‘subalternidade’ no campo acadêmico” (p. 40). E, de outro lado, tem-se em mente os saberes já construídos e que são prerrogativas para a pesquisa, além da curiosidade de desvelar novos saberes. 

 “Os tipos de violências e seus efeitos na convivência escolar: o que pensam as/os jovens”, de Shara Adad e Vanessa dos Santos, é o terceiro capítulo. As autoras destacam que é preciso desmistificar e desvelar as potencialidades desse público, que tem muito a mostrar por meio da música, da poesia, da arte, da dança, do teatro.  O texto cita a pesquisa Sociopoética, cujo primeiro ponto é “as violências na relação com a convivência no espaço escolar” (p. 48); sendo que, nesse modelo de pesquisa, tem-se os facilitadores de oficinas (pesquisadores) e os copesquisadores (público-alvo). Existem diversos tipos de violência, dentre eles, Bagunça-na-cabeça-dor da violência-carinha-triste-na-escola, que se refere às relações familiares e sua precarização; Formas de Violência-olhos-não-têm-um-nome-bocas-bullying, que faz referência ao preconceito, julgamento, humilhação, até mesmo o bullying pode ser considerado como um assédio moral. As autoras salientam a importância da escuta e do diálogo, pois influenciam os jovens a falarem sobre seus sentimentos, medos, inseguranças.

 “Pertencimento religioso e atuações juvenis na escola de ensino médio” é o título do estudo de Ana Porelli, Douglas Bortone, Luís Groppo e Dirce Pacheco e Zan, que compõe o quarto capítulo da obra. O texto discute o pertencimento religioso, experiências religiosas de jovens e como isso influencia o engajamento na política, bem como a mudança de religião, após as ocupações secundaristas que ocorreram entre 2015 e 2016. Os autores apontam que os jovens estão reconstruindo seus caminhos, suas identidades, sendo que essa reconstrução está passando pela religiosidade, pela educação escolar e pela política. Para os autores, conhecer como os jovens têm vivido a religiosidade é importante para entender possibilidades e riscos da relação entre religião e política.

“Juventudes brasileiras e participação política no contexto das tecnologias digitais” é o quinto capítulo, assinado por Aline Camargo. Diante de uma pesquisa quantitativa e qualitativa, observou-se a descredibilidade que os jovens têm na política atual. Quais os meios que os jovens encontram para manifestarem sua participação? O espaço encontrado e cada vez mais buscado por eles vai desde as petições, passando pelos projetos de iniciativa popular, até as mobilizações e representações juvenis dentro dos espaços públicos. Estudiosos acreditam que as mídias sociais são um meio de empoderamento social em vista do bem coletivo, dando-se pela dimensão política e da comunicação. O texto aponta que as redes sociais têm sido um espaço importante para ampliar, divulgar, expor, informar sobre as organizações de grupos sociais, sobre mobilizações, além de ser um espaço de divulgação de assembleias, plebiscitos e da própria opinião, seja singular, seja plural. 

O sexto capítulo, intitulado “A docência universitária e as juventudes: ampliação das relações pedagógicas em uma perspectiva humanizadora”, de Caroline Bellenzier, Simone Guerra e Altair Fávero, trata da docência e a heterogeneidade atual. Como administrar a docência universitária e como pensá-la em âmbito humanizador? Os autores afirmam que a docência universitária perpassa o ensino teórico e abrange as dimensões e transformações sociais e históricas. Defendem que os profissionais que saem da universidade sejam ativos na sociedade, comprometidos e não meros executores. A partir dos momentos que o professor entende-se como educador e deixa o aluno tomar as rédeas de sua própria educação, além de ensinar, um estará aprendendo com o outro, formando um profissional dedicado a si mesmo, seus estudos, suas reflexões e discussões. Por fim, defendem que é preciso pensar uma educação humanizadora que vai permitir aos jovens sentirem-se protagonistas e não meros ouvintes de sua formação. 

No capítulo intitulado “Educação, cultura e juventude: uma experiência sensível na prática de Artes Visuais”, Marise de Souza, Nádia Alves e Poliana de Jesus discorrem sobre a escola como um espaço significativo de “possibilidades, experimentações e elaborações de diferentes percepções do real” (p. 127). E, assim, a arte apresenta-se como um importante meio de expressão das subjetividades dos sujeitos, pois, na medida que se conhece o mundo, conhece-se a si mesmo. Segundo as autoras, no cotidiano, os jovens assimilam experiências e informações recebidas, elaborando novos significados. Há de se ressaltar a importância das redes sociais como um importante meio de democratização do conhecimento. As autoras indicam a significativa contribuição da disciplina de Artes, já que os jovens expressam o que sentem, o que conhecem, o que querem mudar.

Na sequência, Maria Luisa Carvalho apresenta o texto “Juventude e economia solidária: potencialidades e desafios para inserção da juventude no trabalho a partir de uma perspectiva emancipatória”. Para a autora, a pandemia do covid-19 agravou a situação educacional e trabalhadora dos jovens. Por isso, propõe a economia solidária como um meio para a inserção dos jovens no campo estudantil e de trabalho diante de um enfoque emancipatório. A economia solidária tem, como enfoque, “práticas de produção, comercialização, consumo e finanças pautadas em princípios da solidariedade, cooperação, respeito à natureza, comércio justo e solidário e autogestão” (p. 151). É nesse tipo de economia que o sujeito desenvolve a autogestão e espaço para romper os paradigmas ditados pela sociedade, deixando de ser objeto, espectador e passando a ser protagonista. Embora, pelas desigualdades existentes, seja difícil essa economia ser implantada, pois, dentro dessa realidade, ela corre o risco de se tornar mais um meio capitalista, que não é o seu foco.

 O texto de Camila Dutra trata sobre “Juventude invisível: uma análise sobre a interface da relação entre espaço escolar, violências e as crianças e adolescentes em situação de acolhimento institucional”. Traz uma reflexão sobre juventude dentro da relação família, sociedade, educação, escola e quais as maiores dificuldades em garantir uma educação igualitária, que respeite e seja justa para todos os jovens. A frase “educação se aprende em casa, na família” é muito conhecida por todos, mas como aprender educação se a pessoa está inserida em uma realidade de violência? Qual é a visão social, cultural, educacional perante essas situações? Dentre as violências mais comuns estão: física, psicológica e sexual; no âmbito escolar, o bullying e o cyber bullying. Para a autora, a escola tem o papel de, por meio do ensino, promover a reflexão e a autonomia dos alunos para agirem, serem protagonistas de sua educação e de sua transformação social, já que mais do que reprodução de informações, é local de desenvolvimento afetivo e moral.

 No capítulo seguinte, Wagna Gonçalves discute “A percepção da juventude como agente do desenvolvimento: uma análise crítica a partir dos enfoques da OIT”. A Organização Internacional do Trabalho (OIT) é “responsável pelo estabelecimento e monitoramento de padrões trabalhistas” (p. 188) e vale-se, principalmente, da relação entre as dimensões política, humana e econômica. A autora lembra que o foco sobre a questão do trabalho só veio a explodir nos anos de 1990-2000, evidenciando o desemprego juvenil e, como consequência, a pobreza e o abandono escolar. Por isso, é necessário discutir as condições existentes e que possibilitam ao jovem o desenvolvimento. Aliado a isso, é importante debater sobre o que faz parte do jovem no seu dia a dia, como, por exemplo, violência, criminalidade, drogas, pobreza e desemprego. Portanto, é preciso levar em conta, primeiro, as relações políticas e sociais que determinam as formas de atuação dos jovens no mercado de trabalho.  

 “Diálogos e (des)encontros na escola: (im)possibilidades para a relação entre jovens e adultos”, assinado por Luciana Corrêa e Konstans Steffen, compõe o próximo capítulo. As autoras afirmam que o distanciamento causado pela pandemia e a opção pelas aulas híbridas ocasionaram perda ainda maior da atenção dos jovens, além da sobrecarga de atividades tanto de professores, quanto de alunos. Há de se considerar também que, com a mudança de época, o papel do educador tornou-se complexo. Dentre os fatores que geram distanciamento entre jovens e adultos, está a perspectiva destes que tentam ensinar aqueles com base em suas vivências, que, geralmente, são de outros tempos, em outros contextos. Em contrapartida, não se pode descartar que isso também gera uma troca positiva entre ambos, pois nem tudo que é passado é condenável ou usual. No campo dos desencontros, pode-se destacar a metodologia usada pelas instituições de ensino: todos sentados um atrás do outro e, agora, com a pandemia, houve mais desencontro, visto que a sala de aula tornou-se virtual.

“Diálogos entre a sociologia das juventudes e vivências das juventudes negras”, de Isabela Ligeiro, é o título do décimo segundo capítulo. A autora defende a importância do reconhecimento e da valorização das múltiplas vivências das juventudes negras. As escolas têm o papel de se renovar e remodelar para atender toda a demanda jovem que se faz presente nele. Dentro desse ambiente escolar, existem vários fatores que deveriam ser combatidos e que são reflexo da sociedade em que vivemos, tais como: racismo, homofobia, gordofobia, entre tantas outras formas de violência. A autora sinaliza que a resistência ecoa nos mais diversos lugares, desde universidades até espaços sociais, de trabalho, da música, do empreendedorismo, da moda, da fama, da religião, da música. E nesses espaços difunde-se a ideia do valor do jovem negro. Além dos espaços culturais, que, por meio de versos e canções, denunciam o racismo que vivem na pele. Diferente do passado, existem hoje diversos movimentos que denunciam o preconceito, o racismo, a falta de políticas públicas e de conscientização do valor da população negra. 

“Experiência de cuidado pelo SUS com juventudes na região metropolitana do Rio de Janeiro: itinerários possíveis com jovens vinculados ao CAPS AD”, de autoria de Kássia Rapella e Aluísio da Silva Junior, é o tema do décimo terceiro capítulo. A investigação analisou o atendimento a jovens (entre 15 e 29 anos) cadastrados em um Centro de Atenção Psicossocial de atenção ao uso de Álcool e outras Drogas (CAPS AD). Segundo os autores, infelizmente, o uso exacerbado de drogas nessa faixa etária é frequente, mais que em pessoas adultas e idosas. Importante lembrar que, no Sistema Único de Saúde (SUS), há objetivos que são seguidos, dentre eles: diminuir a desigualdade social e dar assistência psicossocial, principalmente, para usuários de álcool e drogas. O papel do CAPS AD é realizar atendimentos a esses jovens e, mais do que isso, oferecer acolhimento, escuta sem julgamento, dando atenção à saúde deles para que se recuperem.

O décimo quarto capítulo, assinado por Plínio de Figueirôa, trata do “Grêmio estudantil: garantias e legislações no contexto da participação dos estudantes na escola”. Grêmio estudantil é um espaço de estudantes que contribuem, questionam, indagam sobre problemas relacionados à educação, à escola, aos alunos e isso se dá de forma voluntária. Além de conhecimento, as escolas são um espaço de desenvolvimento da consciência política dos estudantes, já que é um importante ambiente de: “convivência; aprendizagem; cidadania; responsabilidade e de lutas por direito” (p. 266). Para o autor, são imprescindíveis a participação e o incentivo dos alunos nesses espaços, pois, a partir desse meio político, eles vão criando consciência e dispondo-se a fazer mais pela política também fora do ambiente escolar.

Por fim, o décimo quinto capítulo: “Orientação profissional para a educação profissional técnica: um direito estudantil” é assinado por Luciano Curi e Flávia Rodrigues. Os autores afirmam que o questionamento mais recorrente no período inicial do jovem é: o que você quer ser quando crescer? Este, na medida em que se vai avançando na idade, gera grande apreensão aos jovens. No caso das profissões, felizmente, dispõe-se das orientações profissionais que ajudam os jovens a abraçar aquilo que gostam, que querem. A orientação profissional é importante porque desencadeará quem serão, mais do que qual profissão seguirão. Para os autores, é interessante criar políticas públicas educacionais permanentes que ajudem os jovens desde o ensino fundamental até a saída do ensino médio a refletirem sobre o que desejam.

Em síntese, os quinze capítulos que compõem a obra discutem temas atuais sobre as juventudes brasileiras, seus dilemas, seus desafios, suas perspectivas e seus diversos contextos dentro de um país com desigualdades sociais, econômicas, educacionais. Desse modo, recomenda-se a obra “Juventudes Brasileiras – questões contemporâneas” a pesquisadores da área e a professores que atuam com essa diversidade de juventudes, seja na educação básica, em cursos profissionalizantes ou na educação superior.


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DOI: https://doi.org/10.5585/eccos.n60.21567

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