Dossiê: experiências pedagógicas em direção à cidade educadora

João Clemente de Souza Neto, Rosana Maria Pires Barbato Schwartz, Bernd Johannes Fichtner

Resumo


Este dossiê nasce a partir de um conjunto de reflexões e debates sobre experiências de pesquisadores de Universidades do Brasil, Alemanha, Portugal, França e Moçambique, vinculados ao Grupo de Pesquisa em Pedagogia Social e História da Cultura das Universidades Mackenzie, Alanus e Siegen.

Seu objetivo é analisar e compreender, pela perspectiva interdisciplinar, as experiências de ocupação e de apropriação dos múltiplos territórios da cidade pelas pessoas e instituições, bem como evidenciar as possíveis formas de humanização dos espaços sociais vinculados a essas experiências.

Emergem na cidade, a cada momento, formas artísticas e pedagógicas, a exemplo do grafite, do funk, da arte de rua, da arte urbana, das brincadeiras e jogos, performances e outras manifestações de cultura popular, a par com distintas formas de apropriação de teatros, cinemas e casas de espetáculo e patrimônios culturais. Essa dinâmica se circunscreve nos critérios da utopia de uma cidade justa, livre, solidária, produtiva, democrática e autossustentável.

A cidade educadora procura integrar e articular as atividades socioculturais, socioeducacionais, artísticas, esportivas, sociais e realizadas nos patrimônios naturais, com a finalidade de potencializar os processos de convivência humana. Os vários modelos de apropriação da cidade expressam as manifestações de opressão e de resistência. Tais práticas podem ser novas formas de reinventar a libertação social. Por uma perspectiva freiriana, diríamos que a cidade educadora abre possibilidades para que cada cidadão possa problematizar sua existência humana de forma ética, no sentido da coexistência e convivência com múltiplas culturas.

É necessário que a prática dos sonhos de libertação sempre nos questione e nos faça refazer os processos democráticos, de forma crítica, para evidenciar as práticas de desumanização e fortalecer as práticas de humanização. A problematização é um jeito de desvelar as formas de opressão e de fortalecer perspectivas libertadoras. Na cidade educadora, o multiculturalismo ou a diversidade não devem servir à dissimulação das manifestações e práticas de opressão.

As lutas contrárias a práticas opressoras que, de um jeito ou de outro, negam a vocação humana, são permanentes e inevitáveis.

 

Homens e mulheres, ao longo da história, vimo-nos tornando animais deveras especiais: inventamos a possibilidade de nos libertar, na medida em que nos tornamos capazes de perceber como seres inconclusos, limitados condicionados, históricos. Percebendo, sobretudo, também, que a pura percepção da inconclusão, da limitação, da possibilidade, não basta. É preciso juntar a ela a luta política pela transformação do mundo. A libertação dos indivíduos só ganha profunda significação quando se alcança a transformação da sociedade. (FREIRE, 1994, p. 100.)

 

A cidade educadora é, portanto, palco de uma nova esfera pública, na qual as decisões requerem a participação popular e forjam o surgimento de um sujeito ético capaz de respeitar os múltiplos saberes e a diversidade. Nela, o sujeito faz o seu caminho de forma coletiva, não isolada, exercendo a sua politicidade, sujeito toma consciência dos seus limites, fragilidades e potencialidades. A nosso juízo, é um meio de enfrentamento da desigualdade social, uma vez que a libertação do sujeito passa pelas transformações da cidade.

A partir do pressuposto de que no interior da cidade coexistem várias ações escolares e não-escolares, buscamos considerar um leque de disciplinas e saberes que contribuem para desvelar os processos de apropriação e interpretação de novas linguagens e da produção do conhecimento. A cidade educadora articula e sintetiza os aspectos socioculturais, sociopedagógicos e sociopolíticos próprios de uma pedagogia social.

A cidade é lócus da diversidade, do encontro e desencontro, da convivência entre o homo sapiens e o homo demens. As múltiplas tensões que nela se confrontam produzem uma forma de diálogo gerador de uma sabedoria não fechada e não isolada, mas criativa e dialética. Uma sabedoria que brota das relações na cidade educadora busca compreender as situações de forma racional, crítica, autocrítica, criando condições de reinventar o social, no sentido da libertação de todos os cidadãos. Um pouco do que Dostoievski descreve em Crime e castigo. Uma outra pessoa pode ajudar o vilão a uma redenção. Nesse sentido, a sabedoria desenvolve a compreensão de si, do outro, da cidade e do planeta em que vivemos,

O conjunto de artigos que trazemos neste dossiê deixa entrever essas questões. É nesse sentido que temos que lutar para concretizar o sonho democrático na cidade. A democracia pressupõe a convivência e o diálogo contínuo entre as múltiplas diversidades.

 

O respeito à diversidade significa que a democracia não pode ser identificada com a ditadura da maioria sobre as minorias; deve comportar o direito das minorias e dos contestadores à existência e à expressão, e deve permitir a expressão das ideias heréticas e desviantes. Do mesmo modo que é preciso proteger a diversidade das espécies para salvaguardar a biosfera, é preciso proteger a diversidade de ideias e opiniões, bem como a diversidade de fontes de informação e de meios de informação (impressa, mídia), para salvaguardar a vida democrática. A democracia necessita ao mesmo tempo de conflitos de ideias e de opiniões, que lhe conferem sua vitalidade e produtividade. Mas a vitalidade e a produtividade dos conflitos só podem se expandir em obediência às regras democráticas que regulam os antagonismos, substituindo as lutas físicas pelas lutas de ideias, e que determinam, por meio de debates e das eleições, o vencedor provisório das ideias em conflito, aquele que tem, em troca, a responsabilidade de prestar contas da aplicação de suas ideias. Desse modo, exigindo ao mesmo tempo consenso, diversidade e conflituosidade, a democracia é um sistema complexo de organização e de civilização políticas, que nutre e se nutre da autonomia de espírito dos indivíduos, da sua liberdade de opinião e de expressão, do seu civismo, que nutre e se nutre do ideal Liberdade/Igualdade/Fraternidade, o qual comporta uma conflituosidade criadora entre estes três termos inseparáveis. (MORIN, 2000, p. 108.)

 

Uma cidade educadora humanizadora, pela ótica de Edgar Morin ou de Paulo Freire, tem como pressuposto a democracia, a qual oferta a todos a possibilidade de se apropriarem dos bens da cidade e de criarem outros espaços. Os indivíduos, em seu processo de apropriação, constituem suas experiências e têm uma prática. Esta dinâmica leva os sujeitos e as instituições a reconhecerem a importância da dignidade humana e, para garantir o desenvolvimento humano, a desencadear formas criativas de lidar com os conflitos e com a diversidade, sempre respeitando as regras democráticas do jogo.

Nesse contexto de perspectivas e reflexões, o Programa de Pós-Graduação Educação, Arte e História da Cultura da Universidade Presbiteriana Mackenzie, em parceria com a Universidade de Alanus e Siegen, realizou, de 18 a 20 de novembro de 2021, um Curso sobre Cidade Educadora. Participaram do Curso pesquisadores e educadores de Universidades brasileiras e internacionais, na expectativa de responder ao desafio proposto pelo “Projeto: Mobilidade humana e culturas no plural: os desafios da convivência”, uma parceria entre o Mackenzie e o Print-Capes.

O projeto trata de questões relativas a: imigrantes, refugiados, expatriados; representações ficcionais e artísticas dos espaços sociopolíticos e culturais; redes de aprendizagem, ensino de línguas e interculturalidade; linguagens não verbais; intolerância na internet, na literatura e nas artes; uso língua em situação de deslocamento, contato e acolhimento; artes como forma de integração e de redução das intolerâncias; pluralidade cultural, implicações para a gestão e atitudes perante o diverso e o estrangeiro; aprendizagem transformadora e enfrentamento de conflitos em diferentes culturas; valorização e preservação do patrimônio cultural, explica a Profa. Dra. Maria Lúcia Marcondes Carvalho Vasconcelos, da UPM.

Também integrou o Curso o Projeto Lidando com novos espaços: crianças e adolescentes na apropriação do complexo arquitetônico do CEU Butantã, uma vez que o Centro Educacional Unificado, cuja pedagogia mantém uma interface com a Carta da Cidade Educadora, desperta no seu território o desenvolvimento de uma consciência cidadã de apropriação da cidade. É sempre bom destacar essa tomada de consciência do sujeito sobre seu território e a cidade. Este tende a ser um dos eixos impulsionadores de uma cidade humanizadora. 

Essas temáticas foram discutidas por vinte e cinco pesquisadores. Dezesseis deles transformaram em artigos os resultados de suas pesquisas e exposições. Oito desses artigos compõem este dossiê, cada um deles evidenciando as múltiplas linguagens e as práticas pedagógicas de apropriação e desvelamento da cidade, mas sem escamotear as diferentes manifestações da desigualdade social que nelas persistem. Em síntese, na cidade coexistem as práticas de opressão e de libertação. A cidade educadora ajudaria a reduzir os malefícios da desigualdade social.

Agradecemos aos pesquisadores que estão compartilhando seus conhecimentos por meio dos artigos, bem como aos editores da Revista. Um agradecimento especial à Profa. Dra. Elaine Teresinha Dal Mas Dias, que nos apoiou na publicação deste dossiê. Desejamos a todos uma excelente leitura.

 


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Referências


FREIRE, Paulo. Pedagogia da esperança. São Paulo: Paz e Terra, 1994.

MORIN, Edgar. Os sete saberes necessários à educação do futuro. São Paulo: Cortez; Brasília, DF: UNESCO, 2000.




DOI: https://doi.org/10.5585/eccos.n61.22340

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