MIR COSTA, Victoria; GÓMEZ MASDEVALL, Maria Teresa; CARRERAS I SUREDA, Llorenç; NADAL I FARRERAS, Montserrat. Evaluación y postevaluación en educación infantil: Cómo evaluar y qué hacer después. Madrid: Narcea; São Paulo: Cortez, 2016

Alexander Abrantes da Silva, José Eustáquio Romão

Resumo


Embora já tenha mais de cinco anos de publicação, a obra objeto desta resenha, referenciada em epígrafe, se justifica por duas razões: uma editorial e outra de conteúdo. A primeira diz respeito a um programa da Editora Cortez, de São Paulo, de publicar, no Brasil, textos já publicados em outros países, sem traduzi-los, apenas negociando sua impressão no formato original – inclusive com as mesmas características físicas da edição estrangeira –, como é o caso da obra em tela. A segunda, relacionada à primeira, refere-se ao fato de ser muito pobre a bibliografia sobre a avaliação na Educação Infantil acessível aos educadores brasileiros da infância.

Incorporada recentemente nos sistemas educacionais brasileiros1, a “Educação Infantil”2 e, mais recentemente ainda, o tema da avaliação da aprendizagem nela aplicada, estão 

   1Embora a Lei n.º 9.394, de 20 de dezembro de 1996 já tenha um quarto de século, sabemos que a produção de pesquisas sobre avaliação neste grau de ensino continua escassa, não só por sua complexidade, como porque a temática certamente ainda não conquistou prestígio na comunidade acadêmico-científica.

2 Aqui registrada entre aspas, porque, embora seja esta a expressão consagrada na própria legislação e largamente disseminada na sociedade brasileira e estrangeira, parece que a denominação mais adequada seria “Educação da Infância”, já que o qualificativo “infantil” carrega consigo uma conotação histórico-sociológica

a merecer mais estudos e pesquisas para passarem a incorporar, respectivamente, as políticas e os programas de formação de educadores de infância e os currículos dirigidos para este segmento da Educação Básica.

Avaliar, na Educação Infantil, é mais do que fazer verificações ou medir dimensões das performances estudantis. Aí, a avaliação é uma atividade indissociável das tarefas de ensino e das práticas de aprendizagem. Ela se constitui como uma atividade que deve ser desenvolvida ao longo de todo o processo do-discente em sala de aula. Consensualmente entre os pesquisadores do campo, independentemente de suas diferenças conceituais, a avaliação é uma ferramenta estratégica, seja para a verificação de objetivos e metas alcançadas (ou não) e, neste sentido, útil para a eventual correção de políticas, programas e planos educacionais – ou, no limite, até mesmo para sua eventual substituição –; seja, finalmente, para o desenvolvimento bio-psíquico-cognitivo-social dos pequenos.

Ao contrário do que afirmam as teorias mais tradicionais, a avaliação não termina com a publicação dos resultados de determinado desempenho objeto da verificação levada a efeito, mas estende-se, na “pós-avaliação” para sua autoavaliação, em suma, para a meta-avaliação, no sentido de sua própria submissão aos processos que propõe e aplica nos outros” (pessoas e instituições). Aliás, a expressão “pós-avaliação” deve ser posta entre aspas porque a meta- avaliação faz parte intrínseca do próprio processo de avaliação educacional, não vindo, portanto, depois dele.

       O livro em tela, além de tratar conceptualmente da avaliação, oferecendo um repertório variado de reflexões e exemplos de experiências concretamente vividas em sala de aula, brinda o leitor com procedimentos e instrumentos meta-avaliados, para aplicação, com mais segurança, por educadores da infância que trabalham com crianças da faixa etária de 0 a 6 anos. Como de praxe em qualquer resenha, a(s) autora(s) e o(s) autor(es) da obra resenhada devem ser apresentados inicialmente. No caso da obra em tela, além dos autores – sobre as(os) quais se fala a seguir, registra-se uma “equipe de trabalho”, constituída por Mireia Crespo i Torres, Coral Saus i Raurrel, María Dilmé i Gualta e Montserrat Planas de Farners i Valentí, numa clara demonstração que se trata de uma obra de autoria, mais do que coletiva, mas, transindividual, porque “interdisciplinariza”, sintetiza e socializa teorias, práticas e propostas de uma equipe de pesquisadores (coautores) e de “aplicadores” (equipe de trabalho”).

A primeira das autoras é Victoria Mir Costa, licenciada em Pedagogia, professora e diplomada em Atividades Infantis e Juvenis. Foi tutora de estágios, nas universidades de Girona 

negativa, como algo identificado com a imaturidade. Ora, a educação oferecida aos pequenos e às pequenas não pode ser “infantil”, na medida mesma de sua complexidade, mas, profunda e cientificamente consolidada, pois eles e elas são mais vulneráveis às influências adultas.

e Central da Catalunha (UVic)). Ela tem formado uma boa dupla com María Teresa Gómez Masdevall, psicóloga especialista em educação da infância e de adolescentes e docente da Universidade de Sevilha. Por vários anos, ambas vêm sendo coautoras, como, por exemplo, nas obras Propuestas de intervención en el aula: técnicas para lograr um clima favorable en clase (1991) e Altas capacidades em niños y niñas: detección, identificación e integración en la escuela y en la família (2011) e Crecer en valores (2011), as duas primeiras na mesma editora do livro ora em resenha e a última na editora Sal Terrae. Os demais autores, Llorenç Carreras i Sureda (docente na educação Básica), Montserrat Valentí i Plantés (idem) e Anna Nadal i Farreras (formada em Letras e Filosofia pela Universidade de Barcelona) trabalham nas mesmas temáticas mencionadas em relação às duas primeiras autoras e vêm constituindo uma equipe de pesquisadores e docentes, com importantes obras teórico-práticas sobre a educação básica da Catalunha. Uma auto apresentação de Anna Nadal i Farreras sintetiza o espírito das equipes que produziram esta obra:

Eu me defino como mãe, professora e cidadã. Eu sou apaixonada pelo meu trabalho. Tenho o privilégio de trabalhar pelo que mais gosto e com extraordinários companheiros de viagem (alunos, familiares e professores). Continuamos fiéis ao trabalho por uma escola inovadora, solidária, participativa, democrática, sensível à diversidade e que valoriza o zelo criativo das crianças. Uma escola alegre e animada onde               todos          somos             atores,                 famílias,  alunos        e                  professores (https://educaciodema.cat/qui-es-qui/innovador/anna-maria-nadal-farreras, consultado em 20 de novembro de 2021).

Evaluación y postevaluación en educación Infantil trata da avaliação que se debruça sobre o antes, o durante e o depois da vida do estudante pequeno em momentos determinados da verificação da aprendizagem na escola. Mesmo porque a proposta abriga-se numa concepção que privilegia a avaliação em processo, isto é, aquela que se dá ao longo e no próprio processo do-discente. De uma certa maneira, as autoras e os autores da obra se inscrevem no universo da chamada “avaliação formativa”, sem qualquer preocupação com comparações e classificações.

Certamente, a avaliação sempre ocorreu, desde que o ser humano passou a analisar conscientemente suas escolhas, a partir de critérios e objetivos. Contudo, a avaliação foi compreendida inicialmente apenas para comparar e medir, sem tratar da valorização da pessoa como agente de sua própria aprendizagem – mediatizado pelo mundo, como dizia Paulo Freire

em várias de suas obras – e de sua própria avaliação.

Os autores deste livro deixam claro que a avaliação, de alguma forma, está destinada a evidenciar os equívocos dos avaliados em um determinado desempenho, mas, ao mesmo tempo, ela não pode deixar de demonstrar os avanços, fazendo-a instrumento de um projeto de alegria,

de modo que as próprias educandas e os próprios educandos encontrem motivos e desejos reais para serem avaliados e passarem a avaliar as próprias dificuldades.

Fica claro no texto que, na avaliação da aprendizagem, entrelaçam-se dois eixos: verificação da aprendizagem das(os) estudantes e levantamento, identificação e análise das práticas político-pedagógicas das professoras e dos professores. As autoras e o autor previnem: “A criança deve ser compreendida, aceita e amada por seus pais e professores” (p. 33). Nessa perspectiva, acentuam que o trabalho educativo deve fazer com que a(o) educanda(o) aceite a si mesmo, fazendo da avaliação um hábito que, desde a infância, fará a(o) menina(o) encontrar condições de refletir sobre seus problemas comuns, buscando o próprio aperfeiçoamento para melhor interferir e se inserir no mundo. Mais do que avaliar a capacidade cognitiva, afetiva, psicomotora etc. da(o) educanda(o), a obra destaca que é preciso levá-la(o) a contribuir consigo mesma(o) por meio do pensamento crítico, a fim de melhor situar-se nos coletivos, já que o ser humano é um ser que somente se plenifica pela vida em sociedade, intervindo na realidade de modo mais qualificado.

A avaliação, demonstram as autoras e o autor, é um tema que requer objetividade, clareza, liberdade e criatividade, para que os que nela se envolvem sejam formados como sujeitos livres, criativos e capazes de se adaptarem às diferentes culturas e às novas tecnologias.

Os professores, em sua maioria, têm uma imagem consolidada de avaliação no sentido

de ela ser um instrumento que aprisiona os estudantes ao fracasso e, pela revelação deste fracasso, atentam contra sua autoestima, pois, na maioria dos casos, não lhes dão chance de participação do processo avaliativo, a não ser como objetos e, não, como sujeitos autônomos, críticos e responsáveis. Se a escola não trabalha a avaliação formativa, impedirá a formação de sujeitos capazes de “voar”. A avaliação é primordial, pois, mesmo nela, o professor é um facilitador da aprendizagem dos estudantes, na medida em que revela seus avanços e os desafios ainda não superados, mas que podem sê-lo, se bem desvendados na meta-avaliação.

O livro evidencia um dos aspectos mais importantes da avaliação na educação para a infância e, por que não dizer do próprio processo educacional de crianças como um todo: a importância das atividades lúdicas, mesmo nos momentos formais da verificação das aprendizagens, sem falar que oferece um amplo e diversificado repertório de instrumentos de avaliação “empapados” de ludicidade. Nos instrumentos e exemplo oferecidos destaca-se, ainda, a oportunidade e a propriedade das expressões não orais, mais especificamente, das expressões corporais, certamente voltadas para a avaliação do desenvolvimento psicomotor das crianças, sem falar que a linguagem corporal acaba por se revelar como poderoso canal de comunicação.

Como as autoras e o autor da obra tratam do insucesso do estudante e da estudante infantil? Tratam-nos como fracassados e fracassadas, que devem ser condenados e condenadas à exclusão do ambiente escolar? De modo algum: são reconhecidos e reconhecidas como seres capazes de aprender, na medida em que são considerados como protagonistas de sua própria avaliação. Nessa medida, cabe a nós leitores refletirmos sobre suas análises e propostas.

Mais do que um texto de avaliação para a Educação Infantil, mais do que mais um livro na pobre literatura do campo, a obra é, também, um manual de didática, no bom sentido dos dois termos, com sugestões preciosas de atividades a serem desenvolvidas com crianças, sem falar na ampla e magnífica antologia de contos e de jogos, detalhadamente descritos e disponibilizados para os educadores e educadoras da infância. Certamente, por sua riqueza e profundidade, o livro não deve ser recomendado somente aos educadores da infância que trabalham profissionalmente nas instituições de Educação Infantil do País, mas a todos os educadores que lidam com crianças da primeira infância.


Palavras-chave


Educação; avaliação; Ensino

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Referências


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DOI: https://doi.org/10.5585/eccos.n60.21284

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