Em algum lugar do inacabado. JANKÉLÉVITCH, Wladimir; BERLOWITZ, Béatrice. São Paulo: Perspectiva, 2021

Ana Maria Haddad Baptista, Kacianna Patrícia de Jesus Barbosa e Amorim, Paulo Saul Duek

Resumo


Wladimir Jankélévitch, (1903-1985), era graduado em Filosofia pela Escola Normal Superior em Paris. Sua vida foi dedicada, predominantemente, ao magistério e a pesquisas, por excelência, na área musical entrelaçada com fortes indagações epistemológicas. 

Lecionou em diversas universidades da Europa e participou de inumeráveis movimentos que poderiam ser sintetizados em uma só expressão: resistência. Resistência a tudo aquilo que subtrai nossas capacidades mais criativas. Em outras palavras: resistência a tudo aquilo que oprime e nos torna incapazes de olhar para as pequenas coisas que tornam a vida tão fascinante. Por mais simples que ela seja. Foi autor de inúmeras obras. Uma das mais conhecidas é seu famoso livro O paradoxo da moral.

Em algum lugar do inacabado é um livro que materializa uma longa entrevista feita pela aluna, dileta, do autor (a ela dedicou a obra A música e o inefável) Béatrice Berlowitz. A excelente introdução, tradução e notas foi realizada por Clóvis Salgado Gontijo.  O livro em referência é estruturado por partes. Cada parte possui uma temática em que a entrevistadora demonstra um preparo e conhecimento do entrevistado fora do comum. De fato, ela mostra total domínio do conjunto de obras de Jankélévitch.

Apesar de ser um livro cuja estrutura se estabelece pelos diversos temas abordados, existe uma unidade que é tecida, finamente, por uma grande obsessão do autor: o tempo! Conduz-nos, nós leitores, a verdadeiros jardins da memória atravessado por rios que refletem cintilações, diga-se de passagem, em que o tempo ora se mostra aprisionado em cápsulas de um retorno, ora como um devir irreversível, (por lembramos do saudoso Prigogine), ora na música, ora quando se refere à morte enquanto uma finitude concreta.

A grande verdade, ao lermos o livro em questão, é que seria quase impossível falar sobre ele. As imagens poéticas, entrelaçadas agudamente, com perspectivas filosóficas dignas de serem questionadas, praticamente, tiram o nosso fôlego diante de tantas possibilidades a que o autor nos conduz. De forma leve e sedutora. Como se estivéssemos lado a lado diante de suas colocações regidas, quase que cegamente, por uma sensibilidade elevada ao mais alto grau. Rumo, de fato, ao inacabado de nossas esferas subjetivas. A inesquecível e atordoante descida ao abismo que a interioridade jamais para de nos cindir e escavar, por não esquecer de Deleuze (sejamos justos). 

Nessa medida, somos conduzidos por ele e pela entrevistadora quando adentramos, por exemplo, na parte em que ambos falam do amor. O filósofo vai direto a certos pontos marcados pela tradição literária e filosófica. Situa-nos, entre tantos outros pontos que poderiam ser mencionados, a margens paradoxais de estados amorosos, que dançam nas profundezas de rios tão insondáveis quanto aqueles descritos pela alma de Guimarães Rosa. "O amor é mais forte que o mal, o mal é mais forte que o amor, e assim infinitamente. Essa contradição nunca poderá ser resolvida, o dilaceramento nunca poderá ser recosturado" (p.185). Prossegue o autor: "O amor não é mais verdadeiro que a verdade e mais justo que a justiça?" (p.184). Ou: "O amante ama seu amado por inteiro, incluindo os defeitos; ama-o como ele é, com os seus vícios, apesar dos seus vícios...Chegaríamos até mesmo a dizer: por causa dos seus vícios" (p.187). Enfim, particularmente sobre o amor, Jankélévitch atordoa os leitores como se estivéssemos dentro de um cilindro, espiralado, subjugados por  movimentos contínuos de subidas e descidas.  E assim  nos conduz para as concepções de amor em Platão e outras esferas. No entanto, sem jamais tangenciar o banal e a mesmice digna de almanaques ordinários que não cessam de povoar, para infelicidade humana, o nosso cotidiano em todos os graus.

Uma outra parte do livro que nos chama a atenção é aquela dedicada à morte. O questionamento a respeito da finitude inescapável é agudíssimo. De certa forma, ele nos arrasta para pensarmos: em que medida encaramos a morte? Por que, mesmo sabendo que vamos morrer, (uma determinação fatal), o sobressalto diante da morte de alguém nos paralisa?"Ao mesmo tempo, porém, podemos dizer que nos preparamos para morte a cada instante de nossa vida, posto que a morte nunca nos desvencilha por completo de sua misteriosa presença, simultaneamente prevista e imprevisível" (p.226). Reporta-se, de forma contundente, à morte não como uma doença! E, sim, como a doença. E, claro, incurável. Uma condição humana da qual ninguém pode escapar. "Não se aprende a morrer. Não se pode se  preparar ao que é absolutamente de outra ordem. Uma preparação sem preparativos: eis o que exige a morte" (p.227). O filósofo prossegue declarando que a morte jamais oferece à humanidade um ponto de apoio. Ou seja, não existem escapatórias. Por tal razão ela não pode ser capturada por meditações. "O pensamento, ao não ter do que se ocupar gira em círculos indefinidamente. De tanto repetir, de tanto entrechocar todas as palavras relativas à morte, acabaremos por fazer fulgurar algum clarão?" (p. 228). Nessa medida, o autor nos leva a pensar, entre tantas outras coisas que poderiam ser destacadas, que meditar sobre a morte, na verdade, é meditar sobre a vida e, assim sendo, oscilamos entre a sonolência e a angústia. Deveríamos, antes, olharmos para acontecimentos que possam nos preencher. Caso contrário somente nos restaria o vazio de uma existência que não valeria a pena viver. Remete-nos  a uma dolorosa situação e que no entanto é real: após a morte de alguém, (não importa de quem), a vida como um todo, inabalável, possui continuidade. Tudo continua e deixa de lado aquele momento, de interrupção, criada por uma morte individual. Como já disseram muitos poetas: o dia em que morrermos o sol continuará a brilhar. E os lobos continuarão a uivar. As formigas continuarão a trabalhar.  As cigarras não vão interromper seus cantos! E mais: queiramos ou não cairemos nos mares das memórias regidas pelo esquecimento, indiferença. Provavelmente algumas cintilações, efêmeras, do que fomos um dia surjam. Mas nada podemos assegurar após o nosso desaparecimento. Nada. Nada. Nada. "A morte abre a  janela para alguma nova terra? É uma sacada que dá para um torrão desconhecido? Já basta! Ela desemboca no vazio...no nada (rien) de toda terra. Para escapar a esse nada, os homens inventaram um alhures, uma para além, uma margem ulterior" (p.232).

Merece ser ressaltado, ao lermos este belíssimo livro,  a parte em que Jankélévitch nos coloca, – a partir, sempre, da conduta da entrevistadora –,  como  temática, central, a música. O autor relaciona música e silêncio. Um ponto alto em suas reflexões. Dessa forma, somos tentados, sedutoramente, a pensarmos nas relações incontornáveis entre a exigência da música que é, sobretudo, o silêncio. Ou seja, para que possamos ouvir uma música é necessário que façamos o silêncio. Uma imposição quase que automática! Como ouvir uma música sem que nenhum ruído nos distraia? Como ouvir uma música se estivermos falando? A música jamais tolera o barulho. Ela exige o silêncio. "A música, que por sua vez faz tanto ruído na sala, é o silêncio de todos os outros ruídos; todos os ruídos são parasitas diante da música" (p.257). Quando atravessamos  as reflexões do autor a respeito da arte musical somos invadidos por uma incrível perplexidade. Em que consiste tal perplexidade? O que ele nos diz já sabíamos. Mas jamais tínhamos pensado nisso. Eis o papel daqueles que dão voz ao que não tínhamos sequer pensado. Imaginado.  No entanto, tudo estava diante de nossos olhos! Dançando e pululando! Mas não enxergávamos. Estávamos surdos e cegos ao que agora se mostra tão lucidamente para nós. Mas foi preciso alguém sentir, ver e materializar o imperceptível que num verdadeiro salto se mostra irradiante e luminoso diante de nós. Sentimo-nos atônitos mediante o sublime exposto pelo autor. Sabíamos de tudo. Mas, ao mesmo tempo, não sabíamos. "Muitos músicos, ao envelhecerem, tendem pouco a pouco ao silêncio; como se as suas obras fossem vencidas pelo despojamento e pela nudez do inverno" (p.260).

O filósofo nos coloca diante de muitos músicos. Mas, nitidamente,  percebemos o quanto ele nos chama a atenção para Debussy: "O ruído do mar que ouvimos se compõe de uma infinidade de murmúrios que não ouvimos; em Debussy, as incontáveis gotinhas de onde nascem esses incontáveis murmúrios são convertidos em música" (p.264). Evidentemente, o autor se refere à famosa música de Debussy que se intitula La Mer . Quase impossível, nós leitores, não ouvirmos La Mer novamente. Assim vamos em busca dos sons indicados pela sensibilidade de Jankélévitch. Descortinam-se sons inusitados.  Murmúrios oceânicos que vem ao encontro das finas camadas de nossa – oscilante, sempre oscilante – subjetividade. "O chiar de um inseto, o gaguejar de um bicho noturno, o estalar de uma folha seca, o suspiro de um brotinho de relva...Nada escapa ao ouvido milagroso de Debussy" (p.264). Novas sonoridades pululam ao encalço do que antes, talvez, fossem inaudíveis, para nós leitores, muitas vezes, asfixiados por nosso infame e tedioso cotidiano, isto é, onde reinam a mesmice e as infelicidades da angústia e que resistem aos grandiosos convites que a vida nos proporciona.

Conforme adentramos nos textos do livro, muitas questões são, de certa forma, impostas à reflexão.  Entre elas: por que somos enredados, muitas vezes, por coisas que não valeriam sequer ser notadas por nós? Em que medida deixamos para trás – sem a mínima chance de um retorno – o que deveria ser admirado? Por que as misérias humanas se abrem diante de nós sem que possamos domá-las? Por que não paramos e, de fato, seguimos o famoso Olhai os lírios do campo? O que nos impede? Seria, na real,  nossa  única forma de vida aquela que nos rouba, descaradamente,  seus melhores momentos? Em que dimensão existencial nos encontramos? Em que medida a circularidade temporal, (que coexiste com o eixo irreversível), repetitiva e que subtrai a transformação, se mantém soberana?

E, finalmente, as últimas entrevistas do livro possuem um fio condutor que promove a união da música, do tempo e do piano enquanto instrumento: "É pelo piano que me conecto à música, amo a música que posso ter sob os dedos; a minha ligação com certos músicos que nem sempre são criadores geniais se deve ao lado pianístico de suas obras" (p.289). Afirma, com muita suavidade e poeticidade, a satisfação tátil que o piano, enquanto instrumento, possibilita. Assim como "a participação de todo ser no encanto do tempo" (p.290). Afirma como uma música ao piano é plena.  Dispensa outros instrumentos.  Ele quando está diante de uma partitura sente  como se estivesse adentrando no que já sabia de antemão.  Sensação primeira jamais experimentada antes. Uma espécie de leitura à primeira vista. Muitas vezes adiada porque ele já espera algo que vai empurrá-lo para abismos de vislumbres nunca antes vividos. "Quando consigo reservar uma ou duas horas no fim da jornada, é ao piano que as consagro: isso porque o piano derrama em nós a serenidade da alma, a exaltação poética, o esquecimento do tempo" (p.300). Com isso, nós leitores, sentimos que abrem-se diante de nós certas perplexidades que vão da inércia, frequente automatização de nossa intuição sensorial, às aberturas de nossa alma para outras paisagens repletas de novos aromas. Dantes nunca testados ou experimentados.             Uma delas, quando o autor nos coloca que juízos de valores em relação à música são quase inúteis. Em especial, declara o autor, porque a música se desenvolve numa dimensão de temporalidade que se mostra continuamente inacabada! "E ainda que a obra musical, sonata ou sinfonia, tenha um começo ou um fim, a temporalidade na qual a obra se recorta nunca começa e não há de terminar" (p.301). Prossegue o autor: "O inacabamento da temporalidade nunca é uma simples mutilação e influencia a obra fechada, tornando-a evasiva, vaporosa e difluente" (p.301). Nessa medida, conclui o autor que a música encerra em si mesma uma temporalidade brumosa e englobante. Com isso não existem critérios unívocos que possam julgá-la. A música foge aos critérios. Ela não se deixa prender pelos tentáculos dos modelos preestabelecidos que regem as críticas.

Ao finalizarmos a leitura da obra vemos que este livro poderia ser indicado para qualquer ser humano, não importa a área de especialização, e a todos aqueles que, momentaneamente, esquecerem de si mesmos. Mas também a todos que estão à escuta de uma sinfonia mais vasta. Sinfonias aromáticas que nos arrastam para um olhar mais complacente diante das adversidades da vida que como tais, na maioria das vezes, sempre se farão presentes. A grande sabedoria está em como administrarmos aquilo que não é esperado. O imprevisível e as indeterminações fazem parte de um círculo que envolve, queiramos ou não, as nossas vidas. Concluímos, também, o quanto determinadas existências foram marcantes e necessárias para pontuar e desviar nossos olhares para outros horizontes. E ao descortiná-los para nós temos a sensação, muito nítida, de que muito pode ser mudado e transformado.

No entanto, em nenhum momento do livro, Jankélévitch impõe seu ponto de vista ou julga. Deixa que seus leitores, de forma natural e deslizante, sejam conduzidos às paisagens que ele oferece. Como um convite educado em que ninguém seja obrigado a compactuar com suas posições. Confessa, em alguns momentos do livro, que ninguém está obrigado a gostar das mesmas coisas porque estas passaram por crivos de academias de todas as espécies. "A arte não deve recusar o encanto, deve somente refiná-lo e aprofundá-lo: do prazer não recusa senão a repugnante facilidade" (p.323). Com tal afirmativa devemos considerar que, muitas vezes, as artes, (incluindo a literatura), são acusadas de envolver atmosferas sensíveis muito distantes do senso comum e o consagrado por critérios estabelecidos como absolutos. O filósofo possui uma posição muito provocativa. Isto é, declara que a estética, como um todo, deve ser revista e reorganizada para que não possamos estacionar em zonas que paralisam nossos sentidos. "O homem razoável recusa ser cativado por razões que nada provam, que nada ensinam, que não admitem a mudança nem a análise das ideias, mas que solicitam, o silêncio de uma comunhão imediata" (p.320).


Palavras-chave


Educação, Literatura, Filosofia

Texto completo:

PDF


DOI: https://doi.org/10.5585/eccos.n61.22289

Apontamentos

  • Não há apontamentos.


Direitos autorais 2022 EccoS – Revista Científica

Licença Creative Commons
Esta obra está licenciada sob uma licença Creative Commons Atribuição - Não comercial - Compartilhar igual 4.0 Internacional.

EccoS – Revista Científica

e-ISSN: 1983-9278
ISSN: 1517-1949
www.revistaeccos.org.br

EccoS – Revista Científica ©2022 Todos os direitos reservados.

Esta obra está licenciada com uma Licença 
Creative Commons Atribuição-NãoComercial-CompartilhaIgual 4.0 Internacional