Limites e possibilidades de escuta na Educação Infantil, de Ligia de Carvalho Abões Vercelli e Adriana Siqueira Russo (org.). Jundiaí: Paco, 2021. 112 p

Tatiane Sesztak Leonardi, Ligia de Carvalho Abões Vercelli

Resumo


O livro intitulado Limites e possibilidades de escuta na Educação Infantil é fruto de estudos do Grupo de Pesquisa sobre Educação Infantil e Formação de Professores (Grupeiforp), coordenado pela Professora Doutora Ligia de Carvalho Abões Vercelli, vinculado ao Programa de Mestrado Profissional em Gestão e Práticas Educacionais (Progepe) da Universidade Nove de Julho (Uninove). A obra está organizada em seis capítulos, escritos por professores e gestores de escolas de educação infantil de diferentes redes municipais de ensino. Os autores fazem uma análise de cenas do cotidiano escolar sobre a escuta atenta das infâncias, cujo objetivo principal é demonstrar como ocorre essa escuta por parte dos docentes e coordenadores pedagógicos.

 A obra é organizada por Ligia de Carvalho Abões Vercelli e Adriana Siqueira Russo. Lígia é Doutora em Educação e Docente do Programa de Mestrado em Gestão e Práticas Educacionais da Universidade Nove de Julho (Progepe/Uninove); Adriana é Mestra em Educação pela Uninove, Diretora de Divisão Técnica na Divisão dos Centros Educacionais Unificados e da Educação Integral na Rede Municipal de São Paulo.

No primeiro capítulo, intitulado Roda de conversa: uma possibilidade de escuta, Amanda Maria Franco Liberato e Claudemir Cunha Lins descrevem uma roda de conversa da professora com as crianças, ocorrida em uma escola de educação infantil de São Paulo, na qual as crianças demonstraram interesse pelo alimento dos animais, momento em que a professora conduziu essa conversa com indagações, proporcionando um momento de reflexão das crianças e valorizando suas vozes e seus interesses.

Os autores apontam a importância da escuta infantil no ambiente escolar, uma vez que foi possível reconhecer os conhecimentos de mundo dos pequenos e planejar ações futuras. Salientam que uma das premissas da escuta é o reconhecimento das crianças como seres capazes de ouvir experiências e diferentes pontos de vista, sendo o silenciamento do adulto ponto essencial para que haja a escuta.

No segundo capítulo, intitulado Você é o calo no meu pé: a escuta de uma criança por meio da brincadeira do faz de conta, Ligia de Carvalho Abões Vercelli descreve uma cena que presenciou enquanto lecionava em uma turma de crianças de quatro anos de idade, na qual, por meio da brincadeira de faz de conta, uma menina expressa seus conflitos internos em relação à figura materna. A brincadeira repetitiva por parte da criança fez com que a docente e a coordenadora conversassem com a mãe da criança, a fim de entenderem melhor o conflito externalizado na brincadeira simbólica da menina. A autora relata que tal escuta foi muito importante, pois, após a conversa, os entraves na relação mãe e filha foram minimizados. 

Para a autora, a pedagogia e a psicologia são áreas que se entrecruzam, e cada uma delas, a seu modo, oferece subsídios à prática pedagógica dos docentes. Vale lembrar que a escola é responsável, como apontam os documentos oficiais que regem a educação infantil, pelo desenvolvimento integral da criança; portanto, escutar as dores das crianças em momentos de brincadeira, entre outros, faz parte do cotidiano profissional docente.

No terceiro capítulo, intitulado Enquanto os outros brincam...abraços por favor, Merilis Aparecida Franco relata uma cena, em uma sala de berçário, na qual presenciou as diversidades sociais entre os bebês, que a fizeram refletir sobre os enganos por parte dos docentes que buscam fazer tudo pelas crianças, como se elas não tivessem vontades e desejos. Apresenta a “estupidez” e a insensatez de professores que, com olhar adultocêntrico, escolhem as atividades a serem realizadas pelos bebês; além de analisar as aprendizagens, relutâncias, cegueiras, esperanças adquiridas em seu tempo de magistério. 

A autora aponta o quanto cresceu e aprendeu com os bebês, mostrando, de forma muito poética, sua trajetória, no sentido de escutar os bebês. Apoiando-se em Friedmann (2020, p. 162), ela ressalta que somos “estrangeiros nas terras infantis”, portanto, temos de ajudar a traduzir o que muitos adultos desconhecem sobre a vida infantil.

No capítulo quatro, Idas e vindas da (não) escuta da criança, Valquiria Bertuzzi Veronesi, inspirada em uma obra de Gianni Rodari, de 1997, relata a falta de escuta das crianças por parte das professoras durante uma atividade de artes visuais. A autora destaca que as docentes subestimam a capacidade das crianças de desenharem e não dão oportunidade para elas criarem durante as aulas. Em seguida, aborda conceitos sobre a desvalorização das crianças nas escolas de educação infantil, lugar no qual deveriam ser protagonistas. Destaca também sobre a importância da formação permanente dos professores, para que ampliem seus conhecimentos sobre a escuta atenta das crianças.

A autora salienta que as lacunas existentes na formação inicial não podem servir de desculpas para que a criança seja negligenciada em seus direitos e, portanto, não seja ouvida. Ressalta que o trabalho de formação permanente dos professores não pode se assemelhar a Sísifo que, no mito, empurra diariamente uma pedra morro acima, sempre iniciando do marco zero; pelo contrário, a formação deve ser reflexiva, para que os docentes possam superar os entraves do cotidiano.

No quinto capítulo, O caso do gira-gira proibido: a importância da escuta sensível na rotina com as crianças, Adriana Siqueira Russo apresenta um recorte de sua pesquisa de mestrado, destacando o adultocentrismo ainda presente nas escolas de educação infantil. Aponta a complexidade que envolve o ato de observação e de escuta atenta das crianças, por parte dos docentes. A autora discute conceitos importantes sobre a pedagogia da escuta, que deveriam estar presentes no cotidiano dos professores, para que tenham um olhar atento e sensível para com as crianças, refletindo constantemente sobre suas práticas na escola. Ressalta também que os docentes precisam “olhar para as crianças e escutar o que não dizem” (p. 93). Isso significa perceber suas expressões, as quais revelam singularidades e particularidades de cada uma.

No sexto capítulo, Direcionamento das ações da coordenação pedagógica e da prática educativa de uma professora a partir da escuta ativa da criança na escola da primeira infância, Fernanda Mota Vellado Passos e Leila Cilene relatam o papel importante de escuta dos professores, por parte da coordenadora pedagógica, em uma escola de educação infantil. Segundo elas, a coordenadora contribui com as educadoras, por meio de suas devolutivas sobre as atividades que elaboram, para que sejam capazes de refletir e repensar sobre suas práticas diárias com as crianças, ressaltando sobre a escuta sensível e atenta para com elas.

Segundo Passos e Cilene, tanto coordenadores quanto professores têm de entender o planejamento como possibilidade para projetar ações, refletir sobre o vivido e, se for o caso, repensar novas estratégias, nas quais teoria e prática conversam entre si.

Neste livro, são abordados diferentes momentos de escuta infantil ou a falta dela, por parte dos professores. As autoras se utilizam de embasamento teórico consistente, tais como autores da pedagogia crítica e da psicanálise. Ficou evidente que, nas escolas de educação infantil, é fundamental que os educadores tenham um olhar sensível para com as crianças, a fim de que seja possível realizar uma escuta ativa de seus desejos e suas vontades.

O conteúdo do livro contribui significativamente para todos os educadores, gestores e formadores, a fim de repensarem e refletirem sobre os momentos de escuta infantil nas escolas da primeira infância e como estes são importantes para o planejamento e direcionamento de suas práticas diárias.

Não podemos mais calar as crianças. Elas têm voz. Somos nós, os adultos, que as silenciamos. Temos de ter em mente que aprendemos com elas, que elas veem o que os nossos olhos não enxergam. Elas miram o que não miramos. Elas nos surpreendem a todo o momento.


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DOI: https://doi.org/10.5585/41.2022.22712

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